Balão surpresa e saudade velada

Atualizado: Set 9

Sinta-se em casa. Sugiro que use o tapete dentro do box, aqui podemos sentar – é coisa de dez minutos, mas sempre demora um monte - e nos esconder atrás da cortina, mantendo a discrição caso algum adulto embalado pelo efeito diurético da cerveja, ou minha mãe invadam o espaço me procurando. Pode tirar o chapéu de papelão, o elástico machuca mesmo, para quem usa óculos é ainda pior.


De todos os rituais, de todos os sacrifícios festivos com os quais infelizmente precisei compactuar por anos, o que mais me assombrou foi o balão surpresa em festas de aniversário. Preferia velório - neles a circulação era mais lenta, tanto a do protagonista quanto a no evento.


O balão surpresa é uma desgraça anunciada: não sabemos ao certo o momento, mas em algum lugar - no frio da espinha - a profecia está talhada. Eleito por ordem de inconveniência, um adulto (geralmente um tio fumante usando bigode, pochete e a chave pendurada no cinto) sobe em uma cadeira. Ansiosamente, espera que as crianças se organizem, tal qual mortos-vivos em volta da instalação que poderia ser considerada um dos círculos do inferno. Esses segundos são os piores. O sensacionalismo dos anos 90 não estava tão intenso na TV quanto nos segundos pré-balão-de-festinha-infantil.


Estavam lá o tio, as crianças, os segundos, o cigarro que demorava tempo demais para estourar o balão para quem estava em sofrimento, tempo de menos para que os pequenos zumbis pudessem se organizar de forma segura. Segurança não era o forte nos anos 90.


Nem agora.


Poucas vezes fui testemunha ocular de tais atrocidades. De certa forma aprendi a reconhecer o clima da festa, o tédio dos adultos e a forma com que davam um jeito de acabar logo com tudo isso (não tão rápido que as câmeras analógicas não pudessem registar, mas não tão devagar que tivessem que ouvir algum assunto de adulto a mais). Como hoje, as pessoas apressavam tudo. Para tapar um santo pelavam outro.


O barulho ensurdecedor não era pior que os segundos anteriores a ele. Do banheiro nunca vi nada, mas me parece que era assim. As crianças que não saíam mortas ou feridas do ritual ficavam ainda mais agitadas. Os adultos não podiam esperar, não aguentavam esperar. Se divertiam: a tia organizadora de festas, o aniversariante privilegiado (escolhia os brinquedos antes do cenário de horror) e o primo mais velho que além de ser maior e pisar em caras e mãos sem dó, tinha convicção de que quem está na chuva é para se molhar.


Eu sempre culpei meus semelhantes, mas entendia a falta de um repertório comportamental distinto, até porque eles não participavam dos velórios como eu. Velório e aniversário, dois rituais que marcam nossos ciclos e que também são vivenciados em tempos diferentes. Circulações de gente e sangue diferentes, aglomerações em tempos que escoam cada um do seu jeito.


Continuidades e descontinuidades.


Agora todo dia a gente fica vivendo o dia todo, e todo dia parece os segundos do pré-balão-de-festinha-infantil. Me cansa ver tios em cima de cadeiras encostando cigarros nos velórios de tanta gente. Tanta gente sem velório, tanto aniversário sem circulação. Tanto tempo que o tempo fica sendo o tempo.


E a gente aqui. No banheiro apertado, ouvindo o barulho lá de fora, esperando passar o movimento, a aglomeração, o parabéns, o silêncio do velório... A saudade é um adulto com tédio que tapa um santo e pela outro.



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