Cheiro de manjericão, por Maria Cristina Carvalho

Este texto foi produzido a partir da Oficina de Escrita Criativa O corpo conta.


Como um cheiro pode nos atirar de repente em um outro tempo, em lugares, a pessoas? Foi o que aconteceu comigo ao abrir aquela latinha e inalar o cheiro peculiar e refrescante do manjericão. De imediato lembrei de ti – mulher de voz fina, sempre a cantarolar, deslocando-se pelo mundo com suas pernas de sereia. Quem diria que passados alguns anos, de forma prematura, os teus olhos brilhantes de sonhos e de vida não mais existiriam, pelo menos aqui, neste plano, o meu.


Como uma alquimista na cozinha, perseguias de forma encanzinada amigos e amores. O espaço e o tempo pouco importavam, de forma mágica acordavas a milhares de quilômetros e cruzando os céus sem preguiça te materializavas na porta da nossa praia. Tinhas persistência, esse poderia ser um dos teus sobrenomes. Quantos amigos fizeste, embora teu gênio, diríamos, complexo. A atriz, uma outra amiga, sempre dizia que eras missioneira sereia.


Toda a gente se rendia aos teus pratos – moranga com camarão, macarronada com molho italiano e muito manjericão, doces arábes, quibe, salada de triguilho, salada de maionese feita com batata doce – sendo estas três últimas receitas temperadas com muita hortelã. Essas lembranças me fazem “escorrer água pelos carrilhos”, como dizemos por estas bandas. Havia muitas outras especialidades, que tristemente, neste momento, me dou conta que já me fogem da memória. Mas, tenho ainda nítido o toque dos temperos aromáticos, que se tornaram parte de ti. Daí a lembrança.


Ah, amiga sereia, aprendi contigo a metodologia do agrado, da presença, do cuidado. A comida para ti era isto, pitadas de amor, sedução e conquista. Conquista de gente. Arrecadaste na tua breve vida muitos e grandes amigos, porém não tiveste a mesma sorte no amor, muito embora o teu empenho. Nesse quesito sempre foste a que amava mais e que pouco era correspondida. Que merda!


Para homens tinhas um dedo podre – mulher com andar de sereia. Conheci três dos teus amores e, bah, todos vampiros, que usufruíam e desprezavam a tua generosidade. Quantas lágrimas e risadas me enchem neste momento os ouvidos me inundando de lembranças de quando bebericando um vinho – nós, a irmandade das mulheres - os analisávamos: o véio, o nego véio e o palhaço. Acredito que te mandaste cedo, pois já estavas cansada de buscar amores. Talvez não.


Paro e tenho a impressão de que a qualquer momento vou te ouvir, chamando:


- Nega, vamo à praia? Assim mesmo sem o “s”.


Meus janeiros e julhos nunca mais serão os mesmos, restam-me as dietas, a saudade e em uma latinha o cheiro do manjericão.


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Maria Cristina Carvalho nasceu em Rio Grande. Advogada, militante na área de direitos humanos, doutora em Educação Ambiental. Apaixonada por livros, pessoas e histórias, aventurando- se nos caminhos da escrita literária.

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