Das impossibilidades

Atualizado: 13 de Abr de 2020

Em dias de quarentena, a mente ociosa da gente vagueia entre o excesso de (des)informação sobre a pandemia atual e o cumprimento daquelas metas caseiras/pessoais cuja irrealização a gente costuma atribuir à falta de tempo – este que agora abunda. Viver hoje parece implicar necessariamente um ter de lidar com a angústia que deriva desse estar entre, de um lado, a delícia de um permitir-se e, de outro, a imposição de reclusão.


Por falar em “estar entre”, faz já umas boas duas semanas que eu venho hesitando com relação a escrever ou não este texto, o que acabo por fazer em virtude de certa necessidade. Hoje cedo me estressei com meus pais, porque eles têm evitado sair de casa, mas não param de receber visitas. Em termos de genealogia, eu a muito custo tenho aprendido a dizer alguns nãos, contrariando os meus antecessores. E tenho me esforçado por incentivá-los a dizerem também os seus, sobretudo neste momento. Mas, às vezes, dizer não é menos demonstração de poder que de impotência. Ousaria dizer que é no embate entre a impotência de dizer não e a necessidade de dizê-lo enquanto atestação de impotência que nós temos nos movido, nos últimos tempos. E essa frase talvez tenha ficado meio mal montada e exija que a gente a retome outra vez, com calma. Infelizmente, parte da minha impotência reside também em não saber dizê-la de outra forma, neste momento, em oposição à ânsia de fazê-lo já.


O sentido da impossibilidade tem me acompanhado, nas últimas semanas. Em alguns momentos, inclusive, no sentido de previsão frustrada do impossível – impossível este que acaba por realizar-se, por exemplo, quando eu chego até minha mãe cheio de dedos, tentando fazê-la entender que não deve sair abraçando e beijando as mãos das pessoas, como fazemos no terreiro, nem recebendo as filhas de santo com todo o afeto italiano que a minha família tem, apesar de aparentemente não haver ascendência italiana entre nós, e ela, fazendo desmoronar toda a minha teia argumentativa, diz que já tomou as devidas providências e que está evitando contato o máximo que pode. Dias depois disso, tivemos a bendita discussão do parágrafo anterior. Uma discussão amorosa, a bem da verdade. Mas não foi sobre isso que eu vim falar hoje, aqui.


Vim aqui porque o sentido do impossível tem de alguma forma me atravessado nos últimos tempos, mesmo antes que estourasse essa sensação coletiva de impotência que assola aqueles que, tomando todas as precauções que podem, convivem com uma parcela da população que parece estar apenas de corpo presente, a cabeça sabe-se lá onde. Vim aqui porque, antes da quarentena, em minha primeira semana de Atuação – acho que todo mundo sabe, mas, se não sabe, eis a informação: eu curso uma licenciatura em Teatro na UERGS, em Montenegro, um curso que me rende algum cansaço previsto e escolhido, mas que, mais do que isso, tem me aportado muita descoberta fantástica – em minha primeira semana de Atuação eu tive de fechar os olhos algumas vezes e lidar com a sensação tangente da impossibilidade. No primeiro dia, lidar com o aluno que sou hoje, tão diferente do que eu era na primeira graduação, agora muito mais maduro em muitos aspectos. Muito mais cansado, também, à beira do sono profundo, incapaz de manter a concentração. No segundo, tentar encarar nos olhos, sem sucesso, uma parte de mim que me petrifica, tão hábil eu tenho sido no decorrer dos anos em esconder de mim mesmo os meus sentires. Tentar conhecer o big bang que me habita e permitir que ele se manifeste em meu corpo para além das lágrimas, esse extravasamento-refúgio do mistério que teço sobre e para mim e ao qual recorro quando tento realizar autoinvestigações.


Vim aqui porque, antes da tentativa de explorar pela arte o que pulsa selvagem dentro da silenciosa e fechada concha que me constitui, eu já havia marejado os olhos em sala de aula, mais cedo, enquanto explicava aos meus alunos da necessidade de respeitarmos as produções textuais mal conceituadas no ENEM. Enquanto, juntos, nós líamos exemplos malsucedidos do Manual do Avaliador de Redações, a fim de compreender melhor como se compunham os níveis passíveis de atribuição na análise de cada competência prevista pelo exame, eu revisitava o meu eu adolescente nas risadas e espantos dos meus jovens parceiros de cotidiano. O misto de surpresa e de descrença com relação ao que eu apresentava, fruto de uma ignorância comum com relação ao tema, encaminhava meus estudantes às risadas – algumas mais nervosas, outras um pouco soberbas, processo também comum e pelo qual tenho certeza que igualmente passam meus colegas de profissão, quando lidam com isso.


Como é de praxe quando discuto a questão, eu apresento o fenômeno, espero pela partilha das reações e intervenho, depois, com a revelação aparentemente óbvia – mas sobre a qual a gente não costuma ponderar sobre – de que aqueles textos autênticos refletem percursos de vida e realidades sociais distintas da nossa. A minha partilha costuma ser, também, a mesma, já há alguns anos: revisito com eles o Giliard que acabara de entrar na graduação, em tempos nos quais ganhava prestígio um certo professor gramatiqueiro de quem eu tenho vergonha de ser colega de profissão e que, graças ao Universo, meus alunos atuais desconhecem. Vejo com os meus alunos o Giliard lá de 2007/2008, com seus 17-18 anos, iniciando no mundo da pesquisa sob o olhar de uma Eliana Tavares que, um dia, questiona o menino sobre as suas risadas e lembra que, se há pessoas que produzem textos cuja escrita destoa tanto da norma, isso se dá por, provavelmente, dois motivos: ou porque os autores do texto tiveram uma educação escolar de má qualidade, ou porque – o que é pior – não tiveram ou quase não tiveram acesso à educação. Depois disso, refletimos a respeito do tema e assumimos outra postura diante dos textos que virão, já que meus alunos avaliarão textos anônimos de colegas de outras turmas. O revisitar aquele meu eu de treze anos atrás é sempre bonito e chega a ser gracioso, porque nos reconhecemos, meus alunos e eu, nessa partilha. Mas, dessa vez, fazer apenas isso era insuficiente, e eu marejei. Marejei porque eu tinha conhecido o Vitor e eu precisava que meus companheiros soubessem dele.


O Vitor cruzou o meu caminho ainda sem nome. Eu tinha acabado de sair da terapia, o celular zerando a bateria enquanto eu partilhava, às pressas, com amigos, a alegria de ter verbalizado um querer, algo que há muito eu não fazia, os quereres verbalizados ganhando quase sempre o peso de uma promessa aprisionadora de futuros. Eu precisava matar tempo – o carro tava na revisão – e me restavam ainda algumas horas a amargar, o vocabulário agora denunciando a nossa impotência diante da grandiosidade que é ter tempo, nos dias de hoje. Decidi entrar no shopping, me perder entre as escadas rolantes, dar uma passadinha na livraria. Foi aí, entre as estantes que eu observava meio desinteressado, que me surgiu um menino pequeno, do auge dos seus dez anos, a me oferecer rapaduras. Minha primeira reação foi negar a oferta antes mesmo que ela estivesse concluída, a pressa que não havia já justificando a fuga de uma importunação. E aí o menino perguntou se eu não podia lhe dar de comer.


Saímos para o almoço. Nós dois e o irmão do menino, de quem eu só havia visto os pés, deitado que estava o corpo escondido no fundo da livraria. Quem pediu pra que ele nos acompanhasse foi o pequeno, porque o maior sequer tirava os olhos do chão. Tentei conhecer um pouco os meninos, fiz uma que outra pergunta, tentando não ser invasivo. Chegamos a um restaurante na praça de alimentação. Disse a eles o que poderia pagar e eles escolheram cada um o seu prato. Sentei com os meninos pra fazer o pedido, Vitor perguntando insistentemente se no pedido que ele havia feito tinha batata frita. O mais velho se sentou em outra mesa. Quando questionado, disse que não se sentia à vontade pra comer na frente dos outros. Eu assenti e disse que já ia embora, que ia apenas esperar pra fazer o pedido e ter certeza de que eles tivessem sido servidos. O pequeno pediu que eu ficasse “pra gente conversar, tio”.


Minha conversa com o pequeno havia começado no percurso da livraria ao restaurante. Ele carregava chinelos gigantescos para o tamanho dele. Me contou que eram da mãe. Contou também que ele havia feito aniversário não fazia muito e que tinha pedido uns sapatos a ela, quem teve de negar-lhe o atendimento da solicitação. “A gente precisa comer, filho”, me disse o menino, citando-a.


Questionei se iam à escola. Disseram que sim, que trabalhavam nas vendas depois que saíam de lá. O mais velho carregava uma pequena mochila. O pequeno denunciou que eles ainda não haviam comido nada naquele dia. Foi no meio dessa conversa, não lembro exatamente em que momento, que eu perguntei pelos nomes deles, e aí descobri como se chamavam Vitor e o irmão. Descobri também que tinham dez e treze anos, respectivamente, e que o menor ia de mal a pior na escola. Vitor começou a repreender o mais velho, não queria que eu dele tivesse uma imagem ruim. Se justificou algumas vezes.


Num intento de me aproximar um pouco mais dos meninos, e na arrogância de tentar ser um exemplo de alento, contei que minha mãe, minha irmã e eu íamos pra casa a pé, depois da escola, e recolhíamos lixo reciclável das lixeiras, pra poder vender. Omiti que eu morria de vergonha e queria ir embora correndo dali quando isso acontecia, também não queria que eles tivessem uma má impressão do menino que eu fui. C, o mais velho, sentou-se com a gente. Fizemos o pedido. Pedi um chá gelado pra mim, pretexto de permanência na companhia. Conversamos um tanto.