Ela espera, por Tati Müller

Atualizado: Abr 13

Este texto foi produzido a partir da Oficina de Escrita Criativa Sobre contar tempos e espaços.


Eu, palco de tantas passagens, encontros e desencontros, a vi atravessando a rua cheia de pessoas, mas vazia de qualquer sentido. Quando ela parou e sentou na cadeira de um bar, eu soube dos medos que rondavam o seu coração. Era final de tarde e enquanto as pessoas riam e conversavam sobre coisas banais regando seus canecos com chopp, ela engolia em seco as dores que carregava. Ela não esperava por ninguém, mas desejava profundamente ser encontrada. E eu, que já vi tantas coisas, ouvi tantas histórias, me entrelacei na solidão naquela moça. Por que no fim das contas, mesmo com tantas pessoas ao meu redor, sentia também a solidão no final de cada noite. Quando a cidade para e silencia, eu mergulho no meu próprio vazio.


Penso que todas as pessoas carregam vazios e medos. Mas o dela era diferente. Era um vazio feito caos. Feito desespero. E um medo feito medo bobo de criança. Como o medo de fechar os olhos enquanto toma banho, ou, de dormir com a luz apagada. É que nela, a luz que se apagava era a da esperança. No silêncio de sua alma e no barulho da multidão, senti que ela me olhava, contemplando minha estrutura. Tantas pessoas passaram por mim naquele dia, mas poucas me olharam como ela me olhou. Poucas são as pessoas que param alguns minutos do dia para contemplar lugares e pessoas. E a moça me olhava, buscando por uma resposta qualquer, como se minha experiência e meu tempo pudessem lhe dizer algo.

Eu não tinha nada a lhe dizer. Mas ela esperava, como se espera pela realização de um sonho. E ela foi devagarinho aproximando sua mão nas minhas estruturas frias.


- A senhora já sabe o que pedir? – disse o garçom. E num susto ela colocou suas mãos sobre a mesa. Eu não a chamaria de senhora. É apenas uma menina. Ela olhou o cardápio, disfarçou, e disse que ainda estava escolhendo. Passado um minuto, pediu um café, apenas por pedir.


Ela se levantou e foi indo até o banheiro. Ela olhava por cada corredor observando as pequenas lojas, a doceria com os típicos doces de quindim e pastel de santa clara, as lojas de artesanato das mulheres da costa doce e a torre do relógio em estilo francês, e eu a observava por cada ângulo diferente. No banheiro, ela se olhou no espelho, e eu a olhei de volta, bem no fundo dos seus olhos. Ali, morava um misto de prisão e um anseio em voar pelo mundo. Ela lavou suas mãos e se admirou por mais alguns minutos. Voltou e terminou o café, sem açúcar.


Ela se sentia inquieta. Suas mãos tremiam. Devagarinho foi colocando em cima da mesa uma pequena mala que carregava. Abriu. Tirou de dentro da mala um segredo, escrito a lápis numa folha amarelada, a letra era tremida e desenhada ao mesmo tempo, uma caligrafia antiga, como eu. Colocou o papel em suas mãos com toda a delicadeza e cuidado, para que o segredo não fosse visto por ninguém. Observou-o. Seu olhar ficou fixo por alguns minutos. Quantas coisas mais ela não carregava naquela mala? Coisas tão pequenas, mas com um peso enorme. Era assim que ela sentia o pequeno pedaço de papel. Amassou-o em seu peito olhando para o céu. E quando uma lágrima escorreu pelo seu rosto e caiu no chão, eu soube do seu segredo...


A menina esperava que alguém a salvasse da miséria desse mundo!



Tati Müller

Sou pelotense, professora de Sociologia, feminista, sonhadora, e atualmente faço Doutorado em Educação (UFPel). Escrevo por pura necessidade sobre as coisas, os sonhos, as estações, os olhares, as dores e os amores. Na escrita, gosto de brincar com as palavras, transitando entre o real e o mágico, e como professora, nunca falta aquela critica política e social. Tenho como inspiração e gosto de ler escritoras mulheres. 

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