Hoje é antes de amanhã, por Gean Paulo Naue

Saí da minha casa às sete horas e cinquenta, porque preciso estar na parada de ônibus um pouco depois das oito. Eu sempre fiz assim. Esperei cerca de seis ou sete minutos até embarcar.


Fiquei lendo coisas que os outros escreveram em algum momento de suas vidas ou coisas que eu mesmo escrevi, em algum momento da minha vida.


Já contei, o ônibus para dezoito vezes pelo caminho até eu descer. Sempre as mesmas pessoas embarcam, mas não sei se sentam no mesmo lugar todos os dias, como eu faço.


Enquanto penso nisso, vejo o ônibus capotar no dia de amanhã, naquele trecho que sempre passamos e nunca aconteceu nada. Mas a chuva estará muito forte amanhã. Lembro de quem não participou do ocorrido e ficou na parada estranhando a demora, mas que, pelo menos, se salvou de forma drástica.


Chegando no trabalho eu sei exatamente o que preciso fazer. Saio para o almoço ao meio-dia. No tempo que me resta, depois de comer com as mesmas pessoas, eu acendo o meu segundo cigarro, porque o primeiro já se foi.

Enquanto fumo, espero passar. Vejo o céu ficar cinza e penso que a chuva de amanhã irá estragar todos os negócios do dia. É que chuva me obriga a caminhar devagar e fazer com que eu não complete o meu caminho no tempo estipulado.

Cinco e meia é meu ônibus de volta para casa, digo adeus aos colegas de trabalho antes de embarcar, eles me dão tchau enquanto terminam suas tarefas. Todo dia é assim, passo horas com a minha equipe desde o meu diploma.


No ônibus, outra vez, o céu já completamente fechado, só esperando. Me lembro do jornal que folheei mais cedo, percebo que não vi nada do que já não tinha visto e que as próximas edições poderiam me surpreender, como nunca antes.

Pego meu celular pensando se eu almoço dentro de um pote plástico por obrigação ou por fome.

Então, abro a porta de casa por volta das seis e meia da tarde, quase escuro e uma leve chuva molha o asfalto. Paro no meio da cozinha e lembro dos restos de pizza da noite anterior.

Depois do jantar, ligo a televisão. Não há um único episódio de House Of Cards que eu não tenha assistido. Vou me deitar por volta da meia-noite, o sono é tão grande que me esqueço de rezar.

Eu queria ler um livro, escutar onze faixas de álbum ou escrever um pouco. Não faço nada disso, penso que amanhã farei. Faria. Amanhã, também, olharei para o mar, já que hoje não fiz isso.

Desligo a luz e se inicia mais uma noite que nem vou ver passar. Sim, eu sei que minha vida é usual e está presa no mesmo frame, até o dia antes de amanhã.

E aos poucos escuto a chuva engrossar e bater no telhado de casa, acompanhada de trovões. Me dou conta que, por causa da tempestade, essa é a última vez que me deito na cama hoje.



Gean Paulo Naue nasceu em 1993 e mora em Venâncio Aires/RS. Diplomado em Publicidade e Propaganda e pós-graduado em Educação, começou a escrever, à mão para os colegas, ainda no ensino fundamental e desde então não abandonou sua vontade de contar histórias. No ano de 2019 teve seu primeiro conto publicado pela Editora Metamorfose e se desafiou a publicar um conto por mês durante todo o ano, em um projeto literário intitulado "EU CONTO", isso, depois de ter escrito 50 Crônicas em 50 dias no desafio literário de sua autoria, no ano de 2018.

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