Hoje termina o horário de verão

Eu nasci lá pelas oito e trinta da manhã num dia tempestuoso. Nasci no início de março e, considerando o calendário letivo, raras vezes ouvi um “parabéns pra você” em sala de aula. Não que isso seja um problema, até sou bem reservado e prefiro nem celebrar muito os ciclos de vida. Tá tudo bem. Entretanto, lembro de um ano em particular, o ano em que fiz quinze anos, o primeiro aniversário que lembro na escola. Não teve festa, não teve parabéns. Não era tradição como com os colegas. O ano letivo já tinha começado e, oito e trinta, no meio de uma aula de matemática, senti necessidade de falar, meio ao vento, mas comunicando um pequeno grupo de colegas, que estava fazendo aniversário. Quinze anos. Percebi uns dois ou três parabéns, senti um tapa nas costas e ouvi uma das coisas mais chocantes da minha curta vida: “Quinze anos? Agora tu vais ver que o tempo passa mais rápido!”. Passei a manhã inteira olhando no relógio pra saber o quanto era mais rápido. Vinte anos depois o mundo não é mais o mesmo, é claro. A velocidade da informação e a dinâmica da comunicação acelerou tudo, mas a sensação de que de hora em hora um segundo desaparece em algum vórtice tempo-espacial continua existindo. Meia-noite de hoje termina o horário de verão e eu nunca sei se é uma hora extra ou uma roubada. Tanto faz. O que importa é que a gente é, de fato, subtraído do tempo ao longo da vida. E não falo da morte. Sendo justo com as ciências mais exatas, que não percebem essa subtração de maneira objetiva, talvez a questão seja mais filosófica ou social ou algo assim. Todo esse blá-blá-blá pra dizer que, de alguma forma, do início do ano até aqui, algo mudou. Dois meses são uma eternidade e, ao mesmo tempo, acontece tudo muito rápido. Nessa última semana morreram, em evidência, o negro, a loucura, o teatro e a comunicação aqui, bem perto da gente. Claro que se a gente colocar isso em perspectiva no escopo da realidade nem era pra doer tanto. Se morre um pouco o tempo todo. Mas não é fácil não sofrer o simbólico dessas mortes. Boechat era mais popular, suponho. Deixa, ao que tudo indica, uma imagem positiva e, ao que parece, vai fazer falta como comunicador, jornalista e pessoa. Era um desses caras que parecia entender que a diferença não é um problema e que a intolerância (lembro do episódio da discussão com Silas Malafaia sobre crimes motivados por intolerância religiosa) precisa ser combatida e problematizada. Admito que tive que ir até o Google pra saber um pouco mais sobre Bibi Ferreira. Foi uma daquelas pessoas e artistas que dedicou a vida ao palco e, assim, foi capaz de comover, movimentar e de extrair da arte não só o belo, mas um real fantástico que explica o mundo pelo exagero que, muitas vezes, é menos exagerado que a própria realidade. E a realidade, na verdade, tão comumente alinhada ao razoável, ao são, encontra mais afinidade na loucura, no inesperado. E assusta a gente. A tendência perversa é de que a gente não queira fazer parte da parcela aloucada da sociedade. E, mais ainda, que a gente evite o contágio. Ouço seguido: “tô vindo aqui fazer terapia, mas não sou louco, tá?”. Tá bem. Mas pode ser, não é problema. E pra evitar o contágio a gente coloca em quarentena o doente. E confina e sufoca e massacra até que não sobre mais nada da diferença. Na sua sensata loucura, Samuel Beckett, dramaturgo e escritor irlandês, populariza o seu teatro do absurdo na necessidade de expressão, mesmo que não exista nada ou nenhuma possibilidade para que a subjetividade encontre a representação e se transforme em arte e realidade. Jacob Levy Moreno, psicólogo e também dramaturgo, considerado o fundador do psicodrama, acreditava que o teatro e a loucura estavam completamente alinhados. A função catártica da expressão humana na relação com outras humanidades pode ser extremamente saudável. A loucura precisa ser compartilhada, exposta e aceita como um afago da liberdade em nossa existência. Hamlet já sabia disso. Mas insistimos em trancafiá-la em camisas de força, em frascos de remédios pra cabeça, em cubículos com colchões e fogo e fumaça, queremos dar choque e desejamos que o outro morra sufocado, asfixiado enquanto, de casa, nas redes sociais, na frente da televisão, vibramos seguros com o extermínio do vírus do mal que parece insistir em tentar contaminar o cidadão de bem, tão vulnerável e tão frágil que a qualquer contato com o outro teme tornar-se ele mesmo, teme não conseguir mais reconhecer a si mesmo na multidão e não ser reconhecido como igual pelos seus. E na loucura se vilaniza todos os tipos, toda ideia de diferença dos ditos padrões. Aqui na minha cidade, na universidade daqui – a FURG, tivemos, que explicar que geografia vai longe e que territorialidade, que é memória e representação, não é exclusividade das linhas nos mapas. A educação já entrou no saco da loucura, essa que é vilanizada e demonizada e que é comunista e que é vermelha e que é monstruosa e que é, enfim, diferente. O medo do contágio e da loucura aceita a morte do negro, aceita a volta do tratamento manicomial em seus piores termos. A função de expressão e resistência da arte é uma parcela daquilo que resta no tempo que ainda temos para compreender que a loucura tem seu próprio tempo – mais rápido, mais lento, uma hora a mais ou a menos no relógio na noite de hoje, tanto faz – e que podemos aprender o tempo todo com a diferença e com a relativização das normas, da normatividade e da normatização. Seguimos esperando Godot.


Régis Garcia é músico, psicólogo, professor, cachorreiro, curte barulho, ruídos, vinil, cinema, literatura, experimentalismos e esquisitices em geral.

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