Lições de permanência: um tour pela Biblioteca Rio Grandense

Atualizado: 25 de Jul de 2019

Por Andréia Pires

Fotos: Andréia Pires

É a Biblioteca Rio-Grandense, um museu incrível de livros em Rio Grande, mas bem podia ser uma máquina do tempo daquelas de filme, uma das portas de El Ministerio del Tiempo se abrindo no meio do século 19 no extremo sul do Brasil para me mostrar porque algumas coisas – instituições e costumes – são como são na minha cidade e de que forma encontram seus próprios meios para contar de si e para durar.


Visitei esse lugar no início do mês e foi mais ou menos assim:



4 de julho de 2019. Botei na bolsa um exemplar de cada título publicado pela Concha, um comprovante de residência e documento de identidade, mais um bloco de anotações e caneta e fui, bem determinada, até a Biblioteca Rio-Grandense. No bloco de notas do celular uma lista de perguntas que vinha editando há meses. Tinha três objetivos: doar os livros para o acervo, me associar e conhecer o prédio e a rotina da biblioteca para fazer uma matéria depois. Quase consegui tudo.


Gerogina Duarte e a neta Maria Stefany Procópio

Fui atendida pelo administrador Marco Antônio Cunha, que me explicou o que cabia ao associado e orientou a voltar outro dia, outro horário, para conversar com a bibliotecária e combinar a visita. Era pouco mais de 16h e não tinha ninguém no salão de leitura. Dei uma volta, fiz algumas fotos, assuntei. Enquanto Marco termina meu cadastro de sócia, uma senhora e uma menina chegam juntas ao balcão. Georgina traz a neta Maria Stefany à biblioteca Monteiro Lobato. A sala infantil, que é gerida pela prefeitura e funciona há mais de 50 anos no prédio da Biblioteca Rio-Grandense, estava fechada naquela tarde, dizia o cartaz na porta. A senhora me conta que as duas são frequentadoras das bibliotecas e entrega ao atendente o romance que traz na mão. Ficam de voltar outro dia. Eu também.


Repenso se devo voltar, se devo fazer a matéria que prometi ano passado ao Ronaldo Gerundo, escritor e atual secretário da instituição. Compromisso que reforcei no fim de junho, no Encontro de Escritores de Rio Grande, quando o ouvi novamente falar das dificuldades que a Biblioteca Rio-Grandense enfrenta, do distanciamento que a comunidade rio-grandina em geral vem tendo da entidade, e principalmente do pouco engajamento dos escritores daqui com tudo o que ela representa. Repenso a minha história com essa biblioteca. Penso no projeto Concha Editora e em tooooodas as conexões que já existem e nas que podem, precisam, ser feitas para o futuro, porque significam contribuir com a arte e a cultura locais e para além.


Os propósitos não são afins? Muito.


Resolvo que devo. Que volto.



8 de julho de 2019. Segunda-feira de manhã, depois de conversar com estudantes de terceiro ano do ensino médio do Colégio São Pedro sobre escrita criativa, literatura, a Concha – é possível ser escritora e viver profissionalmente da escrita em Rio Grande? Dou a minha versão... – volto à biblioteca. Escolho um caminho bem velho, pelas primeiras ruas da cidade, de pedras irregulares, desemboco na beira do cais, passando entre Alfândega e Câmara do Comércio. Contorno a hidroviária, cruzo o mercado. Faz um sol tão impressionante que fotografo tudo: as placas, as docas, os pássaros, as pichações, o novo visual do Largo Barbosa Coelho, a entrada da biblioteca.


Quando me dou conta, a matéria já ia se compondo em mim, mas não ao modo convencional. Ia assim, narrada do meu modo, no meu tom. De voz. Sou eu chegando na biblioteca muito respeitosamente, pedindo licença para entrar, conhecer e espalhar o que a maioria dos rio-grandinos, em tese, já se está farta de saber, ver e ouvir (em terceira pessoa, fontes oficiais e apelos por auxílio financeiro e consciência cidadã), mas agora de outro ângulo na linha do tempo, do meu. Sou eu, num ponto de 2019, redizendo o óbvio e talvez trazendo novidades para quem nunca se inteirou do assunto.


Simone Maria Dutra Grafulha, bibliotecária

Chego perto das 11h. A bibliotecária está lá, aponta Marco. Atrás do balcão do salão de leitura. Finalmente, pela