Memórias de Minhas Primas Tristes

Que triste, minhas primas, vocês estão em mais um desafio de ginástica na internet! Quantos foram esse ano? Será que os corpinhos só malham, ou também vivem?


Como eu sei? Eu sigo-as nas redes sociais, mas elas não me seguem. Não tem problema. Eu já as perdoei. A gente era criança. Não, era adolescente já? Não sei. Sempre foi assim.


Quando éramos pequenas e elas debochavam de mim na minha cara porque eu tinha um nariz enorme, o cabelo cheio de frizz, era sem tetas e com uma bunda enorme e esquisita não tinham essa preocupação estética com elas mesmas, só comigo. Pelo menos eu não me lembro.


O tempo passou pra mim e pra elas também.


Meu nariz ainda é enorme, mas tudo bem. Eu tenho sinusite vez ou outra, cravinhos pretos, mas não se mete onde não é chamado. Bem melhor assim, não acham? Ainda curtem fofocar sobre os corpos das outras meninas? Dos seus trejeitos e personalidades com a aquela acidez que lhes era peculiar?


Meu cabelo ainda é meio espigado, rebelde, mas gosto comprido e solto agora.


A bunda é maior ainda (se é que isso é possível), e agora tem uma pança pra acompanhar.


As tetinhas aumentaram (caíram também) com a idade.


Tudo nelas mudou igualmente.


Uma era seca por dentro e por fora, segue seca por dentro e acha que o de fora podia ser mais ainda.


Outra tinha corpinho de mulher, já até namorava.


Eu? Eu queira trepar era nas árvores, isso sim!


Esta já teve tanta falta de amor-próprio que acho que roía até as paredes de tanta fome.


Muitas cirurgias depois, de redução e de pele, voltou a se desafiar pra não ter que “entrar na faca de novo”, como me contaram.


Que triste, primas! Não por malhar e mostrar, mas pelo que há por trás. Eu sei somente um pouco da vida de vocês, mas eu sei também que por trás de cada gota de suor tem duas de lágrimas.


Mas não posso dizer isso a vocês.


Se lembram que não falam comigo?


Pararam de falar ao mesmo tempo em que parei de chorar toda vez, lembram?


Eu não entrei na faca, nem pelo nariz, nem pela bunda ou pela pança.


Minha mudança foi autoamar esse corpo que eu tenho. A mudança tem de ser nessa hora ordem, gurias: primeiro dentro, depois o fora vem com o tempo. Vocês deveriam tentar.


Vocês nunca estão com a casa em ordem porque começaram a arrumar pela ponta de baixo.


O negócio é ficar bem por dentro, gurias! Porque daí o de fora responde.


Vamos lá!


Desafio vocês a se amarem sem se preocupar com o de fora.


Arrumem suas casinhas interiores, porque só assim terão a visão que eu tenho daqui. A visão daqui é boa.


Mas não posso falar isso pra vocês.


Vocês não falam comigo, lembram?


Grace Borges. Rio-grandina de presença e alma. Devoradora de palavras, arrisca alguns poemas quando lhe dói, uns contos quando com raiva e crônicas quando a cabeça está cheia. Formada em História Bacharelado e Licenciatura, promete que não é doida. Professora de escola pública. Possui praticamente uma única rede social, o Instagram, onde publica algumas fotos, suas leituras e seus textos desde 2016.

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