Nós é coisa muito nossa



É batata. De tempos em tempos, sou parado na rua por pessoas totalmente aleatórias que vêm exigir meu cumprimento: "e aí, não vai me dar oi?". A última vez foi ano passado, na agência dos Correios. O cara cumpriu todo o ritual: avistou a vítima, estendeu a mão e ao perceber que eu não era o barbudo que ele pensava, veio o sorriso amarelo e o pedido de desculpas. Aparentemente tenho uma cópia carbono circulando por aí, que estudou no Joana D'Arc na década de 90, fez Engenharia na Furg nos 2000's e hoje trabalha no Distrito Industrial ou algo assim.


Isso me levou a estudar a figura do doppelgänger, o famoso duplo-eu. Taí um assunto que me interessa desde os tempos do Mundo Bizarro dos Superamigos. Segundo a "tiuria", todos temos pelo menos sete gêmeos perfeitos soltos pelo mundo. É mais ou menos sobre isso que fala o novo filme de um dos geniozinhos do horror moderno.


"Jordan Peele é o novo Spielberg", "Jordan Peele é o novo Hitchcock". Foi com esses superlativos de responsa que Nós (Us, EUA, 2019) e seu diretor foram recebidos pela crítica gringa na estreia mundial, semanas atrás. O filme esteve em cartaz no Cine Dunas e certamente será lembrado como uma das sessões imperdíveis do ano, podem vir me cobrar depois.


Dá pra resumir a sinopse em uma frase: família decide passar um final de semana na casa de veraneio quando são confrontados por eles mesmos em uma versão duplicada. Mas o que Peele consegue fazer com essa premissa é praticamente um curso intensivo de cinema moderno.


O filme abre nos anos 80, num clima retrô à Stranger Things e It, com a pequena Adelaide se perdendo dos pais em um parque de diversões à beira da praia. Ela usa uma camiseta de "Thriller" do Michael Jackson, apenas a primeira das dezenas de citações ao gênero usadas pelo cineasta pra narrar sua fábula. A cena culmina em uma sala de espelhos, com um desfecho que poderá desconcertar o espectador mais desavisado.


Corta pros dias atuais. Adelaide (Lupita Nyong'o, maior mulher viva?), Gabe (Winston Duke) e seus dois filhos aproveitam o passeio de fim de semana na mesma praia do prólogo - até que, sem qualquer explicação aparente, quatro pessoas idênticas à família saem das sombras e começam a tocar o terror com trajes vermelhos e afiadíssimas tesouras douradas. E mais eu não conto, pra não estragar as (várias) surpresas que vão surgir.




Nós é o tipo de filme que vai cozinhando em banho-maria até te dominar completamente. E ele faz isso desconstruindo clichês, e mais, tirando sarro deles. Tipo, aqui o marido não é MESMO o chefe de família. Aliás, é inacreditável que este seja o primeiro papel de Lupita como protagonista. Ela sequestra o longa a cada aparição, e se o mundo fosse justo, no próximo ano teríamos a moça disputando dois Oscars por esse papel duplo assombroso.


O resto do cast é excelente. Winston Duke, o brucutu M'Baku de Pantera Negra, revela sensibilidade e um timing cômico de primeira. Com poucos minutos de tela, Elisabeth Moss mostra que não vive só de Handmaid's Tale. E escalar Tim Heidecker, um dos comediantes mais doentios de que se tem notícia, como um vilão ameaçador é só mais uma tacada de mestre de Peele.


Aliás, seria ele o sucessor de Spielberg, Hitchcock ou Shyamalan? Com pleno domínio da narrativa, uso esperto da trilha sonora (o que é a sequência com Beach Boys e NWA?) e subvertendo estereótipos com a maior naturalidade, é mais justo considerá-lo o primeiro Jordan Peele. O sujeito ainda tem a moral de assinar remake de Além da Imaginação e falar coisas como "apenas negros serão protagonistas nos meus filmes". Não, não tem como não adorar Jordan Peele.


Em suas alegorias e metáforas, Nós é menos óbvio que Corra! (2017), a estreia que catapultou o cineasta para a fama e lhe deu um Oscar de roteirista. Dá pra ficar um bom tempo na mesa do bar tentando decifrar as suas ideias amalucadas e diversas camadas políticas. É aquele filme de terror que te faz pensar, exatamente porque vai além do terror. Mas mesmo quem não está nem aí pra semiótica e mensagens subliminares vai se esbaldar com cenas de tensão e cagaços dignos de um Halloween da vida. Não vejo melhor motivo pra trocar a HBO pelo frio do Cassino à noite. Espero que o meu sósia rio-grandino tenha curtido também.


Fernando Halal é jornalista e fotógrafo, apreciador de rock, cinema, churros e, naturalmente, vídeos de bichinhos.

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