Nunca mais te ver de olhos abertos

Eu já escrevi essa segunda participação umas cinco vezes. Primeiro, um esboço de resenha para o livro de Angela Davis, A liberdade é uma luta constante. Depois do dia 7 de outubro, momento em que o Brasil conseguiu uma chance de dar mais uma respirada antes do fascismo, resolvi escrever sobre livros proibidos: uma listinha básica com George Orwell, Margaret Atwood, Ray Bradbury – só para começar. Daí a ignorância tomou corpo no dia 28 e eu já vinha rascunhando algumas ideias sobre democracia, voz e liberdade.


Porém, o clichê de que “a vida é uma caixinha de surpresas e o mundo dá voltas” se concretizou na minha vida e ok. É preciso continuar.


Nunca fui de desabafar muitas coisas pessoais na internet e não vou me aprofundar agora. Mas isso tem um pouco a ver com o texto final e com a minha relação com a escrita.


Quando eu via/ouvia um pessoal dizendo que a escrita tinha um poder terapêutico, sempre torci o nariz. Como será possível, essa coisa tão superior, tão abstrata, tão transcendental, servir a fins tão mundanos? Essa opinião foi sendo mudada com o passar do tempo. Quanto mais eu estudava, quanto mais me enfiava em teorias, mais acreditava que essas coisas que falamos sobre a literatura, sua função, a beleza, o valor estético não devem ser mais importantes do que é a existência da literatura ela mesma na nossa vida.


Não me considero escritora. Já participei de uma coletânea de contos do Invitro, intitulada Vitrais, com um monte de autores maravilhosos – autores mesmo –, daqueles que não vivem sem escrever. Juntos, também, compusemos o romance Condomínio Saint-Hilaire, lançado em janeiro desse ano. Mas eu não me considero escritora. Se escrevo é por um acidente ou um pedido. “Suellen, será que tu podes escrever uma coluna para o blog da Concha, fazendo crítica literária”? Até posso, adoro compartilhar experiências de leitura. Às vezes sai meio desorganizado. No entanto, quando termino a leitura de uma obra vou direto para o Goodreads e escrevo uma resenha, mesmo que curta. Isso me ajuda a guardar minhas impressões de caráter emocional e também técnicas, digamos assim, sobre um determinado livro. Daí, quando volto a livros que li há muito tempo, posso ter uma ideia mais clara do que senti naquela época com aquela leitura.


A ficção, no entanto, sempre foi difícil para mim. Falta planejamento, falta imaginação (ou pode ser preguiça mesmo). Quando tinha 10 anos (Natal de 1992) ganhei uma máquina de escrever. Estava fascinada por aquele barulho de teclas. Inspirada por muitas histórias da Coleção Vaga-lume eu tentava escrever histórias misteriosas, porém elas nunca tinham fim. Acabei me frustrando com isso, mas lembro de ter escrito muito, muito mesmo, até a fita gastar.


A leitura, para mim, é o melhor exercício de empatia que pode existir. É claro que um quadro, uma performance teatral e um filme podem ativar a nossa empatia. No caso do filme, creio que, atualmente, vem tudo muito embalado, muito programado para manter um status quo. Em pleno 2018 ainda vemos filmes com mulheres frágeis (brancas, loiras de olhos azuis e magras) sendo salvas por príncipes encantados de terno. Não acho que a arte deva abordar só o mundo que desejamos ter um dia, mas deve (ou deveria), ao contrário, mostrar uma pluralidade de mundos e questionar o considerado normal, questionar o sistema e as instituições de poder, ao invés de louvá-los ou reforçá-los.


É nesse desejo da empatia e acreditando na comunicação entre nossos pares que vou deixar aqui um texto escrito esses dias. Não é um poema. Se ele está organizado assim é porque minha caderneta pequena limitou as linhas e a minha letra se alargou pela página. Isso é só um desejo de me comunicar com quem passou/passa por circunstâncias de perda. Ajudou a comunicar algo no meu interior e acho válido compartilhar.


Nunca mais te ver de olhos abertos


Faz sol, a luz da manhã é cega como a nuvem

E eu nunca mais vou te ver de olhos abertos

De agora em diante fecharam-se os canais

convencionais. As perguntas são retóricas

esfumaçando no ar

O abraço imita o desajeito de um quase tombo

O beijo é um som seco

E eu nunca mais vou te ver de olhos abertos

Te encontrar é olhar para dentro

de outros olhares com a tua herança

É ouvir vozes de outras criaturas

Tocadas por teu riso e a tua gentileza

Eu preciso esquecer tua matéria

Aniquilada pelas paredes cinza de cimento

Celebrar a luz que és

De olhos bem apertados

Olhando para dentro.


Suellen Rubira é doutora em Letras – História da Literatura pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Ama livros e música e fotos de animaizinhos fofos.

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