O fim quando chega cabe em qualquer lugar, por Erik Rosa

Este texto foi produzido a partir da Oficina de Escrita Criativa Sobre contar tempos e espaços.


Não apenas as pessoas que vivem e que morrem possuem um fim, mas os lugares também. Cronos é pai tanto dos viventes quanto das localidades, e os destinos de todos os seus filhos é sempre o mesmo. Eu, no meu caso, ainda continuarei aqui por mais não sei quanto tempo e, sinceramente, espero que por muito mais. Porém, ainda que tal desejo se realize e que a minha existência ecoe pelos séculos, tenho amiúde vivido o meu fim desde que nasci. Já experimentei o meu desfecho de muitas formas, já virei passado para tanta gente.


A tudo o ser humano se habitua. O acostumar-se permite que ele conviva até mesmo com o que há de mais detestável na vida. Essa característica, à primeira vista, parece ser uma habilidade proveitosa para a sua sobrevivência, já que em muitos momentos é preciso que ele se resigne frente a adversidades. Porém, ao tirar-se conclusões tão depressa, corre-se o risco de cair na armadilha da existência habituada. Deixar a vida transformar-se totalmente em costume e rotina faz com que ela perca grande parte de seu valor, pois esse tem muito a ver com o ineditismo dos acontecimentos que causam surpresa e deixam aquele que vive em estado de admiração, ansioso por aquilo que poderá ocorrer. Ainda que os fatos cotidianos pareçam se repetir de tão parecidos, é necessário que se atente demoradamente a eles, com a intenção de se encontrar o que de novo a vida oferece. Por isso nunca me familiarizo com os fins que experiencio, exatamente por identificar neles o fato inédito. O caso de agora é, com efeito, um dos quais mais me lembrarei.


Ainda que eu seja feita de árvores, pedra, concreto e que tenha quase dois quilômetros de extensão que se materializam em salas de aula, pró-reitorias e restaurantes, no momento atual estou toda dentro de uma mala, e este é o motivo de eu ter falado o que já falei. Uma pequena mala vermelha com a inscrição “lembranças da FURG” colada na parte de fora. Estou de partida, indo para qualquer lugar longe de mim, tão longe que arrisco dizer que até pegarei um avião. Aliás, já voei tantas vezes, dentro de malas ou corações. Aqui dentro eu me reconheço em alguns poucos objetos, são livros com carinhosas dedicatórias de pessoas que conheço de perto, um broche laranja com as iniciais do meu nome, um casaco também com o meu nome (não podia faltar, já que com o meu frio de meados de ano obrigo as pessoas a usarem casaco), também há diversas fotografias em que enxergo o meu lago verde onde se refrescam as tartarugas, os meus pequenos bosques cheios de pássaros e balanços vazios, os meus hibiscos que tanto me dão charme, a mãe quero-quero que protege os seus filhotes de todos os meus perigos, os meus corredores de inúmeras faces; são tantas as fotografias que aborreceria o leitor caso eu me dispusesse a detalhar uma por uma. Me emociona olhar os objetos dessa malinha, todavia é melhor parar por aqui, antes que alguma lágrima me caia. Quem acharia que um lugar como eu poderia ser tão emotivo? Espere, tem algo mais aqui dentro que eu não havia visto. Ah, sim, um diploma! Só poderia ser, não é? O motivo do meu ínicio e a razão do meu fim. Quantos desse eu vi em minha vida? Até alguns anos atrás eu sabia, agora já perdi a conta. Só sei que por eles sinto o maior amor e o mais profundo ódio.


Eu disse que sou feita de árvores, água, pedra e concreto; está certo, mas também sou feita de gente, e é esse o motivo pelo qual vivo tantos fins meus. Tenho que permanecer enquanto a todo momento boa parte de mim vai embora muito depressa. As pessoas vêm até mim, se fundem comigo e, quando saem, me levam com elas. Mas como também sou desejosa em receber, sempre acabo ficando com algo delas em troca, e graças a isso nunca sou a mesma a que era era antes. Essa mala vermelha que parte hoje é a prova disso.


Certo dia, um jovem que passava distraído pelas minhas calçadas com os fones de ouvidos nas orelhas escutava uma canção gaúcha que dizia: a vida quando acaba, cabe em qualquer lugar. Tenho para mim que sempre que alguém prepara as suas malas e me diz adeus, a minha vida, de certa forma, parece ter fim; todavia eu não morro de todo, pois ainda estou aqui. Posso até dizer que, ao contrário, talvez a minha vitalidade aumente, pois eu me espalho e permaneço por onde quer que esse alguém passe, cabendo em sua mala vermelha ou não.



ERIK ROSA

Nasceu em fevereiro do ano de 1997 em Itaí, interior de São Paulo. Atualmente faz graduação em Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e escreve, junto com outros escritores, no blog Imagística. Já produziu crônicas mensais para o Jornal Agora. Amante de literatura e psicanálise, sempre pode ser visto carregando algum clássico nas mãos por onde passa.

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