Os devedores do seu Chupança

“Esse quando morrer fica pra corpo-seco”, era o que se ouvia. Todos aqui, nessa pequena cidade nos cafundós do Brasil matuto, caipira, onde conheciam uma figura quase mítica, daquelas pessoas que já não são pessoas, mas personagens, fazem parte da história desse lugar; nesse caso, era o Chupança. Ele era um agiota muito famoso. Um verdadeiro avarento. Era amigo de todos. Era inimigo de todo mundo. Pudera! Eram todos seus clientes e devedores. Ninguém gostava de lhe pedir dinheiro emprestado a 25% de juros. Mas, como ali ninguém era rico — corria uma conversa de que os ricos também deviam para o Chupança — só o Chupança para dar jeito quando a coisa apertava. Era a última solução. Talvez a última. Ele era extremamente baixo e gorducho, com uma pança que fazia jus ao seu apelido. O apelido fora forjado ninguém mais sabe por quem nem quando. Logo, logo se tornara o nome do homem, a ponto de quase ninguém mais se lembrar do nome dele. Desconfio que ninguém sabia. Alguns diziam que era Dagoberto, outros que era Ernesto, enfim. Como ele era muito famoso na cidade muitos o cumprimentavam, ou porque sabiam que um dia podiam precisar dele ou porque ficavam sem graça ao serem pegos de surpresa andando na rua, quando estavam endividados com o tal. Era “bom dia, Chupança” daqui e “bom dia, seu Chupança” de lá. Alguns o chamavam de doutor, de modo que todo mundo quando chegava na casa dele e batia na porta tratava logo de chamá-lo de Dr. Chupança. Mas ele não era doutor. Que nada. Era agiota apenas. Um homem desses que fazem a vida não se sabe como. As crianças adoravam irritá-lo, o que não era difícil. Uma pessoa com tanto dinheiro e ao mesmo tempo com tantos devedores não poderia se manter calma por muito tempo. Elas gritavam, de todas as partes, em todas as ruas: – Me dá dois mangos, seu Chupança! Ele não odiava o apelido, pelo contrário. Já se ouviu, dizem por aí, que ele até gostava. E olha que ele não é dessas pessoas fáceis de se agradar não. Uma vez, ele, depois de tomar uma dose de cachaça, começou a dizer aos quatro ventos que seu nome de batismo era mesmo Chupança, que o povo só 2 tinha adivinhado. Esse negócio de beber era coisa que ele não era acostumado a fazer, porque, dizem, ele não gostava de ficar bêbado nem fora de si, mantinha-se numa vigília constante, coisa de agiota, assim não levava um nó de um cabra safado qualquer. O que ele, por ironia do destino, não suportava é que lhe pedissem dinheiro. Seu Manuel, um homem calmo que era dono de um pequeno hotel, o mais antigo e o único da cidade inteira, que não via a cara de um hóspede há muito tempo, de longe era o mais chegado do seu Chupança, dizia que o amigo era uma alma boa, no fundo, bem lá no fundo, e dava uma gargalhada que só o seu Manuel tinha. Acontece que seu Chupança, Deus sabe o porquê, inventou de ser logo agiota, ainda que não gostasse de emprestar dinheiro para os outros. Fez disso seu ganha-pão. A esse respeito, seu Manuel vivia dizendo que o amigo tinha vocação para agiota, só não tinha vontade de ser, que ao passo dos anos, acabou por ficar sendo o que o destino lhe convidara a fazer da vida. Teve uma certa feita, lá pelos idos de mil novecentos e bolinha, quando a cidade inteira devia dinheiro ao Chupança: o padre, o açougueiro, o pedreiro, o oficial de justiça, o delegado e até o prefeito, menos o seu Manuel, é claro, esse aí nunca pegou dinheiro a juro, coisa que ele considerava de uma safadeza imensa. Foi então que saiu uma conversa: — Vão prender o Chupança! — Não Creio, mas se até o delegado deve por homem!? Por fim e ao cabo, não adiantou de nada. Se tratava de um plano. Eles pretendiam manter o homem preso até que ele se esquecesse de quem devia para ele. Mas não se atentaram ao fato do Chupança ser um homem muito astuto. Ninguém podia com ele! Veja só, se poderiam manter o homem preso por muito tempo. Depois de dois dias. Um homem de pantalona e paletó veio da capital pagar a fiança do Chupança. Como manter ele preso quando o que ele mais tinha era dinheiro para pagar fiança? — Por isso esse país não vai pra frente! Os bandido tão solto na rua e os homens bão tão preso! É verdade que a cidade se dividiu. Tinham aqueles que ainda não deviam, que acreditavam na inocência do Chupança. Aliás, ninguém sabia qual era o crime. Agiotagem nunca foi motivo de prender ninguém por aquelas bandas. E tinham aqueles que, fazendo parte do plano de prender o Chupança ou não, se beneficiavam da coisa. É verdade, também, que havia alguns poucos que idolatravam o Chupança, porque ele havia salvado a vida de suas crianças, com essas doenças que vem deus-sabe-de-onde e deita a 3 criança ruim de febre. Não que ele tinha salvado de salvar, não. É que o Chupança era homem de coração mole e bolso cheio quando o assunto era doença de criança. O pobre nunca tinha tido filho. Já se ouviu, também, que o seu desejo maior era de ter sido pai. Sabe-me lá! Não se passou mais do que dois anos, não mudando a situação dos devedores nem para melhor nem para pior, decidiram que iam expulsar o Chupança da cidade nem que fosse à custa de pontapés e pauladas. Se reuniram na frente da igrejinha matriz, na praça. Cada um trouxe o que pode. Toda sorte de instrumento: faca, foice, facão, martelo, bambu, rastelo etc. Iam de um jeito ou de outro botar aquele crápula para fora dali. Foi no meio do caminho — ajuntamento de gente tem dessas coisas — que começou a crescer o furor e o clamor pela cabeça do Chupança. Queriam matá-lo, por fim! — É hoje que eu durmo de novo! Vou dormir que nem os anjo sem preocupação com cobrança! — Ele que aguarde! — Vai morrer que nem galinha na nossa unha! E rumaram para o lado da casa do Chupança. Estavam andando eles qual tal uma procissão barulhenta empunhando seus instrumentos, quando se depararam com uma pequena multidão de mães com crianças. E o tal do Chupança ninguém sabia dizer por onde andava. — O que é isso? Vão defender esse daí agora, é?! — perguntou enraivecido um dos que queriam surrar o agiota. — Mas tal o quê! Mas é com certeza que sim! Ora essa! Foi uma confusão para danar. Era xingo daqui. Era pedra dali. Uma verdadeira guerra civil se instaurou no meio da rua. Foi um dia histórico, muitos dizem por aqui. A discussão durou um tempo, os xingamentos começaram a se repetir, as forças dos braços já não davam para lançar as pedradas. O povo no fim se acalmou. Assim, as mães e suas crianças começaram a clamar pela vida do salvador da vida delas. Elas explicaram que ele não sendo santo não era de todo o mal. Que ele havia dado dinheiro para elas comprarem remédio para os moleques na hora que elas mais precisavam. Com essa prosa toda, começou a acender lamparinas nas cabeças da multidão, outrora enfurecida. Enquanto isso alguém disse que avistou o Chupança batendo papo com o seu Manuel lá na pensão dele. Nem percebera a confusão por causa dele. No outro dia, foi uma coisa estranha de se ver. Todo mundo cumprimentando o seu Chupança, como sempre, mas dessa vez com brilho 4 nos olhos, com risinho de malícia, alguns até pegaram na mão dele, outros ensaiaram o costumeiro doutor, outros davam tapinhas nas cotas, outros até tentaram chamá-lo pelo nome, afim de ser mais respeitosos — Ô, seu Dagoberto! Bão? — Ô, seu Ernesto, tudo bem com o senhor? Ele sem entender nada continuou a acenar e rumar pelo seu caminho de todo dia. Naquela noite, foi um deus-nos-acuda. Praticamente todas as crianças ficaram doentes. Não havia jeito. Só o Chupança que tinha dinheiro para comprar remédio para todo mundo. Foi um tal de entra-e-sai da casa do homenzinho que ele já nem fechava a porta mais. — Acode meu filho, seu Chupança! Num deixa o minino morrer... Seu Chupança ajudou todo mundo que veio na sua casa aquela noite. É certo que o boato de uma nova doença extremamente contagiosa, nociva, sobretudo, às crianças, estava correndo pela cidade o dia todo, bem como até foi publicado no jornalzinho da cidade, cujo dono também devia para o Chupança. Mas, que causo esquisito esse de todas as crianças ficarem doentes na mesma hora! Esse fora o derradeiro plano. Descobriram o calcanhar de Aquiles do Chupança. Sua moleza de coração quando o assunto era menino pequeno. Foi tudo orquestrado com o aval do delegado, com a bênção do padre e a permissão do prefeito. O dono do jornal iria publicar uma notícia falsa sobre a tal da “febre-dos-anjos” — como ficou conhecida — e as pessoas passariam a só falar nisso, para o Chupança acreditar. Desse jeito deram um jeito no Chupança. O homem ficou areado, como se diz por aqui. Não tinha mais nenhum tostão furado. A cidade sugou até o último vintém. Mas parece que o homem não se abalou. Continuava sua rotina andando pela cidade. Pelas mesmas ruas. — Me dá dois mangos, seu Chupança! — continuavam insultando os moleques. Porém, o seu Chupança não ligava mais... Dizem até que ele dava um sorrisinho de vez em quando. O pobre andava leve como o quê. Parecia até que tinha recebido um livramento de Deus.