RESENHA I É preciso que te movas, de Vanessa Regina


Perdi o bonde, a esperança e o prazo do texto dessa semana. Mas o blog da Concha não ficou largado, muito pelo contrário, o Cristiano Vaniel publicou em sua coluna, Letras ao mar, um texto de cair todos os butiá do bolso, um exercício magnífico de experimentação de foco narrativo. Vale a pena ler e o link ESTÁ AQUI PARA VOCÊ NÃO PERDER.

Falei que perdi a esperança, mas é mentira. O livro comentado nesse post me faz recuperar toda a crença em uma literatura contemporânea capaz de fincar suas raízes na terra e, quando é poesia, mais feliz eu fico.


A poesia contemporânea tem sido essa mistura de coisas que nem sempre agrada (a mim, pelo menos). Alguns autores escreveram em guardanapo, outros apostam no hermético que de tão hermético ninguém se entende, alguns partiram para os algoritmos – na crença de que uma poesia da era tecnológica precisa ser tecnológica, sem esquecer dos poemas que muito bem poderiam ter sido tweets. Isso me faz sentir falta da alma da poesia, ou seja, a IMAGEM poética.


Nesse sentido, gostaria de deixar claro que essa é uma questão de gosto, de feeling e de maestria para arranjar as palavras. Sérgio Vaz, por exemplo, expõe em seus poemas uma realidade assaz próxima de nós, uma realidade que aflora em realidade e, ainda assim, pelo rearranjo das palavras e da sua percepção do mundo, elas crescem, agigantam-se na página.


Dito isso, trago para vocês um comentário (apaixonado, não posso esconder) do livro de estreia de Vanessa Regina, É preciso que te movas, publicado pela editora Penalux. A Vanessa participou do Laborátorio de experiências literárias – Invitro, um grupo de escrita criativa fundado pela Andréia Pires, Gilliard Barbosa, Paulo Olmedo e Volmar Camargo Jr., a fim de fazer a galera de Rio Grande produzir e conversar sobre literatura.


Natural de Alegrete, mas morando em Pelotas, a Vanessa sempre teve uma escrita de impacto, no estilo “uma bigorna caindo na tua cabeça”. Não importava o desafio de escrita da semana, a Vanessa ia chegar lá toda quietinha e largar uma bomba em versos e deixar todo mundo sem reação.


Portanto, quando fiquei sabendo desse livro já não havia a menor chance de não gostar e, claro, fiquei muito feliz, pois estava precisando ler uma poesia de profundidade. Se com Hilda Hilst dizemos Tu não te moves de ti, com Vanessa, ao contrário, somos convidados ao movimento. É preciso que te movas, pois o movimento é a poesia, é o alargamento do verso, seu derramamento em cascata a cada estrofe.


O escritor e professor Daniel Baz fez uma excelente apresentação do livro, com detalhes sobre forma e conteúdo, todos muito pertinentes e revelando aspectos importantes sobre a poesia de Vanessa Regina.


Em um primeiro momento, senti uma pegada Hilda Hilst, talvez pela questão dos títulos semelhantes, além do modo como ambas trabalham o interior e o exterior. Mas aí, lembrei de Alejandra Pizarnik, poeta argentina, dona de uma escrita bastante profunda, sucinta e cravada de imagens duráveis.


A construção do poema em Hilda, em Pizarnik e em Regina é única em cada uma delas, mas algo permanece similar: o impacto produzido pela organização dos vocábulos, um modo particular de deformar o real, a fim de nos dar acesso ao mundo através da imagem poética.

Quando faço essas comparações, não quero diminuir, jamais, o trabalho da Vanessa, pois não se trata de cópia. Ao contrário, ela há muito tempo possui uma identidade poética que recorre a imagens do rio e da terra, entre outras. O poema a seguir, por exemplo, inaugura a obra e mostra uma das faces da pedra:


este cansaço que habita

a casa, o furor dos olhos

a mão sobre a fotografia

a palavra, o osso, o pulso

de que é feito o rio

que inunda os dias

onde a alquimia dos lírios

a pedra, eu sei

é só o começo (REGINA, 2019, p.17).


Da imagem de origem, a pedra, algumas páginas depois, é expressa em sua propriedade de aspereza e dureza, na irrealização de um amor:


quisera oferecer as mãos vazias

para o teu hálito de pedra