Respirar e pensar a nova era

O poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz publicou, em 1956, um dos estudos mais belos sobre poesia, intitulado O arco e a lira. Passando por aspectos como ritmo, estilo, verso, imagem poética, entre outros, Paz apresenta o poético em suas mais variadas manifestações. Por essa razão, se você quer aprender a fazer escansão de um poema, não encontrará nada do tipo nesse livro.


Três perguntas básicas norteiam a obra em questão:


  1. Há um dizer poético irredutível a qualquer outro dizer?

  2. O que dizem os poemas?

  3. Como se comunica o dizer poético?


Garanto a todos que é uma leitura imperdível não só para estudiosos de poesia, mas de qualquer âmbito da arte. No entanto, eu não quero discutir especificamente O arco e a lira, mas um trecho que dá início a essa reflexão.


Logo nas primeiras considerações no capítulo sobre a linguagem, Paz afirma:


A história do homem poderia se reduzir à história das relações entre as palavras e o pensamento. Todo período de crise se inicia ou coincide com uma crítica da linguagem. De imediato perde-se a fé na eficácia do vocábulo: “Tive a beleza em meus joelhos e era amarga”, diz o poeta. A beleza ou a palavra? Ambas: a beleza não é palpável sem as palavras. Coisas e palavras sangram pela mesma ferida (PAZ, 1982, p. 35, grifo meu).


Estamos enfrentando algo similar nesse momento. A linguagem está em crise e, sendo ela um produto humano, logo, estamos todos em combustão espontânea. Incomoda-me a distorção desavergonhada das palavras e chegamos ao limite da torção suja dos vocábulos. Um poeta transforma as palavras em imagem, em algo que comunica uma verdade sobre nós. O jornalismo brasileiro torce a palavra para ensanguentá-la e comunicar algo de vil dentro do humano.


É apenas o jornalismo brasileiro que aniquila as palavras? Claro que não. O atual presidente desse país e sua equipe de inúteis estão destroçando as palavras e isso muito me diz respeito e muito me entristece.


O site G1 publicou, no dia 6 de janeiro, uma matéria intitulada “O que significam os termos usados pela equipe de Bolsonaro?”. Na imagem da manchete, apareciam ideologia de gênero, politicamente correto, globalismo, socialismo e viés ideológico. O jornal expõe o significado da palavra e, em seguida, algum dos membros desse circo fazendo declarações usando esses termos de forma descabida.


Pergunta: quem irá, de fato, questionar a equipe de Bolsonaro? Creio que o único veículo de comunicação que está realmente metendo o dedo na ferida sem meias palavras é o The Intercept Brasil. Mais me espanta não haver sequer um órgão do judiciário capaz de intervir – na verdade, deve haver, sim, mas...


A crise da linguagem, por seu turno, passa por uma crise do humano. Uma autorização visível para ser homofóbico, racista, misógino, tudo isso legitimado pelo discurso do presidente e por correntes de whatsapp. O mesmo processo de lançamento de Fake News ocorrido nas eleições de Trump aconteceu claramente no Brasil e ninguém teve a dignidade de condená-lo.


É muito fácil colocarmos toda a culpa no povo que votou nele ou em quem se absteve. Mas mais me impressiona são os órgãos do judiciário que se calam diante de tamanha barbárie.

É preciso muito mais do que esperança para atravessar esse limbo. Muitos ficarão pelo caminho, a começar pelos índios, já violentados pelo desgoverno em poucos dias de posse.

Pensando nisso tudo, convido a todas e todos para uma tentativa de olhar esse momento criticamente sem perder a cabeça. Busque conforto nos livros. Não digo isso de uma forma arrogante, no sentido de que só se aprende algo quando nos encastelamos na torre de marfim dos nossos privilégios. Convido-os a buscar a informação e o conhecimento no sentido de observar a sociedade, os reais problemas que nos assolam e não esse monte de baboseiras publicadas pela mídia, a qual relativiza questões sérias pelo simples fato de não querer tomar uma posição. Muito daquilo ali é assustador e verdadeiro, porém, existe a parcela sensacionalista.


A dica de leitura, portanto, se relaciona com a nossa era, essa nova era que nada tem a ver com o azul/rosa da ministra. 21 lições para o século 21, do aclamado historiador israelense Yuval Noah Harari, também autor de Sapiens: uma breve história da humanidade (2011) e Homo Deus: Uma breve história do amanhã (2015).

Na introdução, o autor revela: “Num mundo de informações irrelevantes, clareza é poder”. Fico me perguntando se existe espaço para a clareza nessa era da pós-verdade (assunto o qual ele também discute).


As 21 lições de Yuval buscam assinalar o momento atual com uma visão no futuro, mostrando quais os desafios mais significativos, hoje. Os temas trabalhados perpassam tecnologia, política, terrorismo e pós-verdade – a qual se relaciona com a disseminação de Fake News, por exemplo. Para o autor, o nosso estilo de vida é um dos grandes entraves para que possamos observar e pensar sobre uma situação com lucidez. Segundo Harari:

Se o futuro da humanidade for decidido em sua ausência, porque você está ocupado demais alimentando e vestindo seus filhos – você e eles não estarão eximidos das consequências (HARARI, 2017, s/p).


O autor chama bastante a nossa atenção para a revolução tecnológica que já está acontecendo; envolve a obtenção de dados por corporações e pelo governo. Isso indica um perigo iminente, verdadeiras ditaduras digitais, capazes de expulsar milhares de seres humanos da esfera social (mais do que já observamos com a fome e a miséria). Para esse tema, indico o filme Gattaca – Experiência genética (1997, conta com Uma Thurman e Ethan Hawke no elenco), além do clássico Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

Parte dos problemas surge da insuficiência de uma narrativa que nos convença. As três narrativas dominantes a partir do século XX, a saber: a narrativa fascista, a comunista e a liberal falharam. É certo que convivemos dentro dessa lógica que preza pelo o valor e o poder da liberdade, mas nem ela está dando conta de tudo o que nos acontece e nos espera logo ali. O fato de vivermos em um sistema mais ou menos liberal não exclui a existência de tiranos.


No entanto, por ora, não há outra coisa melhor para substituir tal narrativa. Precisamos dela enquanto não houver um plano B:


E, afinal de contas, o gênero humano não abandonará a narrativa liberal, porque não tem alternativa. As pessoas podem dar um chute raivoso no estômago do sistema, mas, não tendo para onde ir, voltarão. As pessoas podem desistir totalmente de ter uma narrativa global de qualquer tipo e buscar abrigo em lendas nacionalistas e religiosas locais. [...] Porém se tanto o liberalismo quanto o comunismo estão agora desacreditados, não deveriam talvez os humanos abandonar a ideia de uma narrativa global única? (HARARI, 2018, s/p.)

Difícil tarefa para meros mortais sem o poder sobre a linguagem.


Esse é um livro fundamental para esse ano, de verdade. Anota na agenda!

Mais uma indicação, dessa vez sobre a questão da linguagem e poder, recomendo o artigo “Politics and the English language”, de George Orwell, traduzido para o português no livro Como morrem os pobres e outros ensaios (Companhia das Letras).

Bem, sinto que percorri o globo todo nessa resenha que começou com Octavio Paz, passou pelo absurdo e chegou ao Yuval Noah Harari.

Para encerrar, avanço mais um pouquinho: leiam poesia. Se o romance nos dá a sensação de correr uma maratona de São Silvestre, a poesia é pular do precipício e ser abraçado pela água e tocado pelo vento. Não é difícil, é questão de costume.

Algumas dicas:


  • Cem sonetos de amor, Pablo Neruda

  • Poesia completa, Manoel de Barros

  • Coral e outros poemas, Sophia de Mello Breyner Andresen

  • Do desejo, Hilda Hilst


Até mais! <3


Suellen Rubira é doutora em Letras – História da Literatura pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Ama livros e música e fotos de animaizinhos fofos.

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