Sobre arte, afeto, memória e dentista


Na última terça fui ao dentista. Eu tenho um problema grande de sensibilidade e normalmente pouca coisa já é suficiente pra me deixar desconfortável. Então eu fui. E marquei cedinho pra não ficar o dia inteiro esperando e roendo as unhas. Marquei no primeiro horário possível da manhã, mas já cheguei com o toco dos dedos lascados. O consultório, no centro da cidade, fica bem perto da escola onde estudei até terminar o ensino médio, meu segundo grau. Estacionei por ali mesmo. Não é zona azul, é seguro, tem movimento. Bem mais prático. Cheguei tão cedo que tive tempo de sobra pra esperar no carro antes de encarar a consulta e o procedimento. Tão cedo que tive a sensação, ao passo em que a gurizada se aglomerava na frente do portão da escola, de que eu poderia me materializar a qualquer momento em um daqueles grupinhos. Sabe aquelas lembranças que capturam a substancia da cena e fusionam a memória ao espaço, transformando em vida o mofo do porão? Aquele lugar foi onde formei minhas primeiras bandas, fui aos meus primeiros festivais, descobri meus primeiros zines, o teatro, a literatura, as artes em geral. É engraçado como a gente vai puxando o fiozinho do novelo de lã e a memória vai tomando forma.


Não sei até que ponto (ou qual o momento em que) a gente percebe de verdade que é lá que tá uma parcela considerável da base da nossa cultura, dos fundamentos do nosso desenvolvimento como sujeitos. Claro que aquele espaço não é determinante de coisa alguma, mas, ao mesmo tempo, não o deixa de ser. A gente chega na escola e descobre essa pá de coisas legais, todo esse imensurável arcabouço cultural na conversa com as pessoas. Na verdade – pensando bem –, nem é tanto a coisa da escola em si (acho que nem um pouco), mas o potencial social que emerge dali. Talvez tenha sido justamente isso que me fez pensar nesse texto pra começar a falar sobre música por aqui: a distância que a gente toma do outro e a maneira com que isso incide sobre o nosso desenvolvimento como sujeitos culturais.


Cultura é, também – sem dúvida –, memória e afeto. A arte, o artesanato, a dança, qualquer forma de expressão que toma forma através da ação humana (e não humana, sei lá) me soa como cultura. E é sempre atravessada e atravessa. É a memória e a experiência do outro, que chegou até o outro, ao outro e assim por diante até voltar pra mim em outras formas. Rizomaticamente vamos construindo essa memória coletiva que é, em última instância, cultura. Se a coisa lacaniana tem algum crédito, dá pra dizer que é justamente a relação especular que me dá forma de eu-mesmo. Esse frente-ao-outro-que-não-é-eu-mas-que-me-faz-ser é justamente o atravessamento da memória, da diferença, da experiência, da estória – o atravessamento de toda cultura que a faz ser tão relevante. Mas dizem por aí que vivemos um momento de considerável crise relacional e eu tenho acreditado.


A tal lógica do condomínio me afasta de tudo aquilo com o que não sei lidar, aquilo que me oferece qualquer perigo em potencial. Ainda morremos de medo das invasões bárbaras, de sermos atravessados pelo que é do outro, de aprendermos algo novo na diferença. Morremos de medo do novo e nos agarramos como carrapatos nos monólitos seguros do conhecido. E esquecemos de produzir novas memórias e, consecutivamente, novos afetos. O esmaecimento dos afetos é um prato cheio pra crise cultural da contemporaneidade. Buscamos esse prazer imediato e esquecemos fácil que tem algo além do princípio do prazer. A gente escuta por aí que o artista é esse sujeito que tende ao não-anonimato, o sujeito da necessidade de inscrição como forma de existência, da necessidade de transformar a própria memória, a própria subjetividade e a própria fantasia em partícula cultural.


Esses dias, no horário do almoço, encontrei um camarada que eu não via faz tempo. A pergunta escorregou daquela boca de feijão como se já pronta antes mesmo dum “olá” qualquer: “e aí, tem tocado muito?”. Eu não me ofendo, mas acho meio engraçado e fico morrendo de vontade de levar o assunto adiante com a profundidade que acredito que seja necessária pra dar uma resposta adequada – “não, aqui em Rio Grande a coisa tá meio complicada, fazer música autoral, independente e toc...”. Nem deu tempo de terminar: “não, mas eu nem digo tocar por aí. Essa função não dá mais. Eu digo tocar em casa, de boa. Não tem nada melhor do que isso. Aliás, também já nem saio pra ver show, não rende!”. Aceno positivamente com a cabeça, sigo com o garfo. Mastigo e meu dente ainda dói. Engulo meio torto e me despeço com a sensação de que é necessário falar bem mais sobre isso. Pego o celular, faço um mea-culpa chinfrim e dou play no último disco do Alã. Daqui pra frente a gente fala mais sobre isso.


Régis Garcia é músico, psicólogo, professor, cachorreiro, curte barulho, ruídos, vinil, cinema, literatura, experimentalismos e esquisitices em geral.

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