Três colheres de açúcar, por favor - por Lilian Ney

Atualizado: Mar 10

Este texto foi produzido a partir da Oficina de Escrita Criativa O corpo conta.


Ontem nós fomos visitar o vô Pedro, lá no Cassino, na casa de praia, acho chique isso, casa de praia, meu pai só tem casa na cidade, só uma e é toda azul e tem um jardim cheio de flores que é da minha mãe.


Bom, não é sobre isso que eu quero falar, Didi, é sobre a visita e uma bebida que eu tomei lá na casa de praia do vô. Eu quero dizer primeiro que a casa é muito legal, tem um banheiro de tijolo e o resto todo de madeira e tem um jardim bem grandão na frente, com muito mais flores que o da minha mãe. É a minha vó (o nome dela é esquisito, Vadina, acho que é apelido, eu não sei o nome de verdade dela, um dia vou perguntar, mas não agora, agora vou falar sobre a tal bebida especial), é ela quem cuida do jardim e ela me deixa ajudar quando eu vou lá.


Lá vai, o vô pegou um troço que eu nunca tinha visto, é assim ó, tem um treco comprido pra baixo todo retorcido, como se fosse uma mola de caderno sem as folhas e na parte de cima tem duas asas, que nem de xícara, aí ele pegou esse negócio (o nome é saca-rolha, ele me contou depois, ai que tonta que eu sou) e fincou em cima de uma garrafa de vinho (é uma bebida feita de uva, caso você não saiba, eu não sabia) bem no meio da rolha e foi girando girando girando até chegar perto das asas e então ele puxou pra cima e a rolha veio junto fazendo um barulho esquisito, ploup, acho que era assim, eu até dei risada.


Ele pegou uns copos grandes e começou a despejar o tal do vinho, que cheirinho bom, e a cor, coisa mais linda do mundo, igualzinha a um lápis de cor que eu adoro, e foi colocando um pouquinho em cada copo, pra mim e pros meus irmãos, depois ele pegou água gelada e colocou dentro dos copos até perto da borda, e então ele pegou açúcar e foi perguntando pra cada um de nós como a gente gostava do suco, eu disse que queria bem docinho, e perguntei se podia eu mesma pôr o açúcar lá dentro. Eu coloquei três colheres, daquelas que a gente põe no café, das pequenas, não das de tomar sopa. Aí eu comecei a mexer e tudo foi se misturando.


A minha vó mandou todo mundo sentar pra gente almoçar, a comida dela é melhor que a da minha mãe, hihihihihi, mas eu não vou dizer nada pra ela, senão ela pode ficar triste, né? Aí a gente começou a comer e a falar e contar as coisas do colégio, e pegamos os copos e levantamos eles bem alto e gritamos juntos SAÚDE! e todo mundo bebeu um gole, eu a-do-rei o meu suco de vinho, quando a gente voltar pra casa vou pedir pro meu pai fazer pra mim. Tomara que ele saiba como se faz.


Bom, agora vou dormir que amanhã tem aula de novo! Tomara que a gente vá na casa de praia no domingo, tô louca de vontade de beber mais um pouquinho daquele suco e acho que dessa vez vou colocar mais açúcar, pra ficar bem docinho.

Beijo!



É muito estranho reler as minhas conversas secretas com o Didi, nome mais bobo pra se pôr num diário. Bebo mais um golinho de café, sem açúcar, e eu que gostava tanto, mas hoje adquiri outros hábitos, e o açúcar perdeu o seu lugar no topo das delícias. Tem tanta coisa aqui, tantas lembranças, a vó no quintal cuidando das flores, nós lá no fundo brincando com a bomba de água, a bomba de água, bah! Como eu gostava de beber água ali, bem geladinha, o vô ensinando a gente a soltar pandorga, os cafés da tarde, os banhos de praia, os primos todos brincando juntos, hoje tem tanta distância, bate uma saudade tão grande, se pudesse voltar no tempo, de verdade mesmo, se pudesse abraçar todo mundo e sentados em volta da mesa grande da sala, levantar os copos e gritar bem alto: SAÚDE!


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Lilian Ney é escritora. Faz parte d@s Poetas Papareias e dos Escritores de Quinta. Já integrou o Invitro, coletivo de escritores da Mundo Moinho. Tem vontades demais dentro de si. Com umas sabe lidar muito bem, mas tem outras, ah! E daí surgem suas histórias, seus poemas, tantos versos incompreendidos. E como ela mesma diz em uma de suas crônicas, que a define: e se todas as lembranças, e se todas as saudades, e se todos os abraços, e se todos os outros dias, e se todo meu amor, e se toda essa vontade que às vezes escapa do peito e tinge o papel, ainda está aqui comigo, está viva em mim, é pelo amor que sempre esteve presente em minha vida.

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