A cabeça nublada, por Pedro Moreira

* Neste mês, excepcionalmente, ao invés de no último domingo, o Conchine vem públicado no último sábado do mês.


Tem dias que a gente está com a cabeça nublada. Tem dias, na verdade, que é como estar inteiro nublado. Tudo se resume a falar sobre o tempo, então. “Como você está?”, perguntam; e você respondendo que “tudo bem, obrigado”. “Será que vai chover?”. Mas, você não entende nada de meteorologia. Não sabe explicar em linguagem técnico-científica o que se passa na sua atmosfera pessoal. Onde foi parar o sol?


É que chegou o inverno para você. Não esse que é frio e demora a passar. Um inverno psicológico. É isso? Esse clichê não me soa bem. Porém, não posso encontrar palavras nem metáforas melhores que essa. Desculpe. É que hoje a previsão é de nevoeiro na minha cabeça. É difícil ver bem. Não tem muito futuro para nós porque não enxergo nem dois palmos adiante.


Um dia, uma pessoa que vive de dar conselhos — não, não era um coach — me fez uma pergunta que me deixou atônito. “Se você estivesse dirigindo sozinho à noite no meio de uma tempestade de areia, o que seria o melhor a se fazer?”. Pensei por bastante tempo e não soube responder. “Continuar...”, eu disse sem certeza. Mas para quê? Mas para onde?


“Se você continuar dirigindo sem enxergar nada, provavelmente vai bater num poste ou cair na ribanceira”, a pessoa me disse afinal. Não entendo de meteorologia nem de estatística, mas há uma grande probabilidade de acontecer algo ruim numa situação como essa. É que a ideia de prosseguir costumava ser o meu melhor clichê.


Depois de muita conversa, a pessoa me disse que o melhor seria parar. Simples assim. Não havia necessidade nem de tentar encostar o carro, apenas parar. Sofrer uma batida de quem vem atrás é um risco a se assumir. O que é melhor do que se jogar no precipício dos dias — aqueles com visibilidade quase zero.


Isso me traz a lembrança de uma coisa. No documentário O processo (2018), a cena final é um nevoeiro na esplanada dos ministérios. Eu penso como está difícil separar a vida do país da minha vida, nesses últimos dias. Tudo anda meio bagunçado. E nublado. Não apenas aqui, mas no mundo inteiro. Há quem diga que é culpa do zodíaco, da religião, da política ou da ideologia. Não tenho respostas, mas tenho sintomas. Tudo anda meio nublado, ultimamente.


Já ouvi dizer que na virada do século XIX para o XX, muitas pessoas, nos Estados Unidos, sofriam de algo chamado americanite. Elas relatavam uma indecisão quanto ao futuro e um receio de continuar. Era comum falar em suicídio, ou considerá-lo como um tópico cotidiano. Até livros foram escritos para dar uma explicação sociológica para isso, por exemplo, O suicídio (1897), de Émile Durkheim.


Sofro, portanto, de brasilinite ou seria brasilinência? Mas não entendo nada de doenças. Embora seja hipocondríaco.


Clarice Lispector tem uma frase que me toca profundamente. Eu sei, ela tem muitas frases e citá-la pode parecer pedantismo de internet, mas citar Clarice é preciso. Essa frase li no livro Perto do coração selvagem (1945). “Joana era uma nuvem prestes a chover”. Em um dia como hoje, sou uma nuvem prestes a chover. Todos nós, nos últimos tempos, temos a feição de uma nuvem que está carregada — de tantos trovões, de tantos relâmpagos.


Quando será que vamos chover, afinal?


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Foto do autor: Shay Rodríguez

Pedro Moreira (1995) nasceu em Itaí (SP). Cursa Letras na Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Escreve contos, crônicas e poemas. Colaborou com algumas revistas literárias: Bacanal, Desenredos, Literatura&Fechadura, Mallarmargens e Ruído Manifesto. Edita a ID, revista digital de cultura e literatura. 

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