Três poemas de Daniela Delias

Atualizado: 6 de Mar de 2019


Canteiro


no vão que faz o vestido

quando afunda entre as pernas

pus as pequenas pedras

e agora invento uma cidade


que pode uma mulher

quando arquiteta um templo

sem que lhe dobre o punho

sem que lhe pese o colo

sem que se parta em muitas?


as menores coisas

dei de mover uma a uma



Curva


e se em vez de arranhar o espelho

eu pusesse a mão sobre a nuca

e ante a curva do meu ombro esquerdo

o amor escorresse lentamente?


e se em vez de partir

mil flores de nada

mil versos de quando

mil cacos em tudo

teus dedos pudessem

toda sombra todo muro

toda estrada todo monte


empurraríamos a pedra?



Entre


a fera repousa agora

no imenso deserto que invento

entre a boca e o colo


mas quando suas garras

cruzarem o escuro

abrirei a porta

e beijarei seus olhos


até que me queira

até que me cale

até que me diga


tenho, tenho que acordar



* excepcionalmente, a colaboração do Conchine em fevereiro saiu no primeiro domingo de março. No último domingo desse mês voltaremos com a programação normal. ;)