Boçal, nunca mais

Diante de tempos atípicos, tempos que nunca imaginaríamos nem em nosso pior pesadelo – pois o pesadelo já era estar sob um regime de uma direita burra liderada por aquele cara lá – creio que seja interessante pensarmos algumas coisinhas enquanto sociedade e seres humanos.


Nos primeiros dias da quarentena, fiquei meio perdida. Dividida entre as coisas que eu tinha que fazer (pois o trabalho continuou surgindo) e o pânico de estar nesse Titanic em direção ao iceberg em uma velocidade colossal. Pois bem.

Dias se passaram, o cara aquele lá se pronuncia. É sempre um fiasco – essa é a única certeza do dia. Ele vai se pronunciar? Lá vem fiasco!

A população, com razão, se manifesta nas redes sociais e usa dos impropérios mais curiosos para atingir a pessoa ocupando o cargo de presidente. Um deles eu usei durante muito tempo e, depois de saber sua origem, parei imediatamente.


Você sabe o que significa boçal?

Então, né... eu gosto muito de pesquisar sobre linguagem e palavras – não é de graça que sou professora de língua inglesa e literatura. Mas se você pesquisar em um dicionário online – ou físico, se estiver à disposição, vai encontrar a seguinte definição:


bo·çal 1 (origem controversa) - Será? Veremos a seguir!

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem tem pouca educação, pouca inteligência ou pouca delicadeza. = Estúpido, Grosseiro.


Essa definição foi consultada no dicionário Priberam online de Língua Portuguesa.

Um belo dia, lendo Brasil: uma biografia, da incrível Lilia Moritz Schwarcz e a não menos competente Heloisa Starling, me deparei com essa situação aqui:


“De todo modo, a escravidão se enraizou de tal forma no Brasil, que costumes e palavras ficaram por ela marcados. Se a casa-grande delimitava a fronteira entre a área social e a de serviços, a mesma arquitetura simbólica permaneceria presente nas casas e edifícios, onde, até os dias que correm, elevador de serviço não é só para carga, mas também e, sobretudo, para os empregados que guardam a marca do passado africano na cor” (SCHWARCZ, STARLING, s/p, 2018, grifo meu).


Esse trecho é para dar uma contextualizada no que vem a seguir, pois as autoras passaram a problematizar o uso de várias palavras para se referir às pessoas de origem africana e – claro – sempre dotadas de um negativismo muitas vezes naturalizado pela sociedade. Segue uma citaçãozinha:


“’Boçal’ é ainda hoje uma pessoa com reduzida discriminação de locais e espaços – um tonto; assim como ‘ladino’ continua ser sinônimo de ‘esperto’. Em seu sentido primeiro, ‘boçais’ eram os escravos recém-chegados e que, diferentemente dos ‘ladinos’ – os cativos da segunda geração –, não dominavam a língua ou a região, tendo, por isso, poucas possibilidades de fuga” (SCHWARCZ, STARLING, s/p, 2018).

Tomando conhecimento desses dados, acho uma injustiça continuar propagando o termo “boçal” para uma pessoa burra. Porque os escravizados conhecidos como “boçais” estavam apenas sendo jogados em um novo território e sem nenhuma chance de poder apreender os códigos linguísticos de determinada região (como se isso fosse sequer possível) e a língua do dominador – sempre um instrumento de poder – foi mais um fator limitante de sua liberdade, no sentido de sequer poder sonhar com ela.

Dito isso, ao saber da origem dessa palavra, nunca mais a utilizei para designar o cara lá na presidência. É um desrespeito à memória dos escravizados.

Diante de tantos absurdos – uma péssima gestão antes de uma pandemia e a mais evidente inércia frente a uma catástrofe assolando o mundo inteiro – acho que podemos começar a pensar que a melhor palavra para designar essa fonte de ignorância, treva e maldade é Bolsonaro. Sim, apenas o nome desse cidadão é capaz de comunicar, sem nenhum problema, todas as péssimas qualidades reunidas nele.


Mas ele não está sozinho. Ele é apenas a pecinha que aparece nos pronunciamentos. É sustentado por um judiciário encalacrado (sim, ou vocês acham que o cara pede fechamento do STF e ia ficar por isso mesmo SE houvesse respeito à Constituição?), um empresariado CHINELÃO, que não dá a mínima para você (sim, isso é sabido faz tempo, mas foi preciso ouvir com todas as letras) e uma meia dúzia de gente controlando as riquezas do Brasil inteiro.

Não teremos uma resposta rápida enquanto sociedade por alguns fatores muito básicos:


1) A educação como projeto de não educar – e mesmo assim alguns professores conseguem fazer trabalhos extraordinários em meio ao sucateamento da educação;


2) A polarização alimentada pelas redes sociais. A gente sai xingando e não reflete sobre nada - isso vale para você desconstruído também, tá?;


3) O capitalismo, embora no meio desse furacão imprevisto, vai dar um jeito de se reinventar e sempre vai sobrar para a classe trabalhadora;


4) A classe trabalhadora não enxerga a exploração não é por má vontade. Como falei, deseducação como projeto, jornadas de trabalho exaustivas e políticas públicas que massacram seu deslocamento pelos espaços que ocupam;


5) No meio disso tudo, temos que nos preocupar com a questão da saúde pública e o seu sucateamento sistemático ao longo dos anos e como isso irá refletir na opinião da população sobre as condições do SUS. Afinal, muita gente já morreu e vai morrer. E é uma pena que até hoje, 29 de março, não se tenha nenhuma estratégia efetiva de como reagir a isso.

Eu me estendi um pouquinho nesse texto, mas creio que foi por um bom motivo. Trazer uma informação relevante (espero) e confesso já estar com saudades da pesquisa, coisa que eu amo fazer e não posso mais porque a CAPES não abriu renovação para a minha bolsa. Mas quem precisa dessas coisas de livros, literatura, não é mesmo?


Um abraço afetuoso a todos os leitores, cuidem-se e, independente do que ouçam, fiquem em casa. Existe um monte de trabalhador que não possui os mesmos direitos que você e estão todos os dias expostos ao risco de contaminação pela COVID-19.

O que vai sobrar de nós depois disso...


Até breve!


Fonte consultada: SCHWARCZ, Lilia Moritz, STARLING, Heloisa. Brasil: uma biografia. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. (Eu usei a edição do kindle, por isso não há número da página).



Suellen Rubira é doutora em Letras – História da Literatura pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Ama livros e música e fotos de animaizinhos fofos.

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