Proibido I Um conto de Annabel Laurino

Estou escrevendo, como você me mandou. Você disse que isso ajudaria. Escreve e joga pra fora aquilo que tá aí dentro. Foi o que você disse. Então, eu estou escrevendo e se você está lendo isso agora é porque deu tudo certo. Se você está lendo isso agora é porque eu consegui.


Ele era loiro. Não gosto de homens loiros, mas isso não foi um problema. Ele era loiro e tinha as mãos grandes. Mãos que ficavam apertando as costas dela, como se massageassem o dorso, sentissem a coluna, as vértebras. Invejei esse toque. A língua dela entrava pela boca dele. A mão da mulher ia até a nuca dele e depois tocava no seu rosto. Eu queria saber como era o rosto dele, se aquela barba por fazer pinicaria na minha mão, assim como eu acho que pinicou na dela. As cerdas dos pelos duros arranhando os crespos das mãos dela, num redemoinho de linhas e fios que se tocam.


Eles não me viram parada ali esperando. Fingi que olhava para o outro lado da rua. As coxas dela juntavam-se às coxas dele. Imaginei se eles estavam se esfregando. Imaginei o sexo dele. O sexo deles. Eles fazendo sexo, nus, e ela gemendo. Não pude esperar mais, cheguei perto. Oi, tudo bem? eu disse, é que eu moro aqui e preciso entrar. Não, não tem problema, podem continuar aqui, é só que eu preciso entrar. Tá bem, obrigada. Entrei, subi correndo, acendi as luzes.


Não sei o nome deles. Não sei quem eles são. Onde ele trabalha? Não sei. Penso se com aquelas mesmas mãos que ele apertava as coxas dela, ele não passa o dia inteiro escrevendo, datilografando, ou falando de números. Não sei o que ela faz. Se trabalha ou se assim como eu é uma mulher casada. Pensar nisso me faz odiar ele e nutrir uma afeição maior por ela. Imagino os seios dela, se os bicos são rosados, marrons. Sei que agora você deve estar se perguntando porque comecei a escrever. Mas escrever foi um grito.


Você me fez prometer que não faria mais isso. Eu prometi, eu sei. Mas quando prometi, estava apenas querendo me livrar do peso, da dor, do asco. Eu não queria mesmo ter prometido. Pensar nisso foi um alívio. Pensei no pau dele e na boceta dela. Sua voz veio alta na minha mente em seguida que eu pensei. Sua voz dizendo que eu não podia dizer isso, que isso não é coisa de mulher casada, o certo seria não dizer, não pensar. Foi o que você disse pra mim, porque falar assim, pensar assim, boceta ou pau, é muito feio. Mas agora eu penso, penso no pau daquele homem e na boceta daquela mulher. Penso na minha própria boceta. No meu próprio sexo.


Você me fez prometer que não iria mais fazer isso também. Mas confesso: prometi como quem promete da boca pra fora. Eu sabia que não iria cumprir. Você disse que era coisa de puta. Assim mesmo: Isso é coisa de puta, só vadias fazem isso, sua vadia, sua puta. Então eu sou uma puta. A sua putinha. Eu começo a me tocar. Você não gostaria disso, diria que não é coisa de mulher casada, que só você é quem pode me tocar. Mas eu já não ligo. Me masturbo. Eu me toco. Sou uma puta.


Você vai chegar a qualquer momento, sei disso. Por isso eu faço questão de levantar, fico nua. É de frente para a entrada que eu me deito, nua, te esperando. Eu vou ouvir os seus passos no corredor. Enquanto isso eu continuo me tocando, sentindo a umidade nos dedos, o duro, a gota de algo que eu não sei o nome caindo pela minha coxa. Não sei o nome porque talvez eu nem saiba o nome daquilo que é meu. Olho pra mim mesma, para os meus pelos, o corpo que você nunca me deixou tocar.


Marcos, eu sei que você vai chegar, sei o que você vai fazer. O mesmo que você fez da última vez. Mas já preparei tudo. Eu já sei que eu não vou suportar mais uma vez ser arrastada pelas suas mãos, tocada pelas suas mãos. Receber esse teu corpo do qual não gosto, não quero. Esse corpo em cima do meu. Um corpo que me esmaga. Marcos, eu sei que quando você chegar vai ser o fim. Continuo me tocando, continuo com a mão tocando a mim mesma. Intercalo entre escrever e me tocar. Não gozo. O gozo vai vir quando você chegar, quando eu ouvir os seus passos do lado de fora. Me toco enquanto você não chega e rio imaginando sua reação quando me ver, rio imaginando seus olhos se abrindo como um louco, um louco que você é, Marcos, um louco que vai me arrastar pela ultima vez. Eu sei.


Não diz que eu não te obedeci. Não diz que no fim, não fui uma boa esposa. Estou escrevendo, não estou? Ouço seus passos. Vou parar de escrever.


Annabel, que também é nome de um poema do Edgar Allan Poe, mora em Rio Grande num castelinho de tijolos amarelos, tem duas gatas, uma com nome de café e a outra com nome de sua personagem favorita do Flaubert. Annabel é estudante de Letras Francês e passa a maior parte do seu tempo mergulhada em café e livros. Aliás, odeia escrever sobre si mesma.

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