ÉGON I Um artista com diversas faces

Por Hiago Reisdoerfer


Há 5 anos Égon Batista (28) liderava um dos projetos mais intimistas da música papareia, Égon e o Leão, que misturava a voz suave e marcante do cantor com melancólicos compassos acústicos. Do amor a moda, tatuagens e letras que exploravam sua infância e o cotidiano na cidade do Rio Grande, o músico transformou sua produção de conteúdo, mergulhando de cabeça no mundo do pop e da música urbana.


Música como expressão

Compor. Criar. Expressar. Segundo Égon, a música em si sempre foi uma constante em sua vida. Desde quando consegue lembrar, escrever letras e melodias eram – e continuam sendo – uma das melhores maneiras de dar vazão aos seus sentimentos. “Tem gente que bebe, tem gente que fuma, tem gente que assiste futebol, eu componho”, relata. Em 2013, o músico – de então 23 anos – começou um projeto acústico sem grandes pretensões na intenção de, puramente, tocar suas criações. Em suas palavras, reunir os amigos e mostrar-lhes as suas canções “sempre foi o suficiente”. Hoje, assumindo uma nova fase em sua carreira e lançando novos materiais com uma abordagem sonora bem diferente, o artista promete surpreender novamente a cena cultural local com o alterego King Flaco. Parafraseando minhas próprias palavras, publicadas nas páginas do periódico rio-grandino “O Peixeiro”, em 2016, Égon Batista continua sendo completamente diferente de tudo o que você tem ouvido recentemente.


Como tudo começou...

Por influência indireta do pai, Égon, ainda pequeno, começou a demonstrar o primeiro interesse pela música. “Meu pai tocava violão, não profissionalmente, mas ele sempre compôs as próprias músicas pra gente tocar e cantar. Tinha de tudo, rock ao samba, mas o legal era essa criatividade dele”, lembra. Aos dez, despertou o interesse em aprender um instrumento e escolheu o violão. Segundo o músico, a guitarra acústica tem um ar íntimo e pessoal, sensível ao toque do instrumentista, o que acaba estabelecendo uma forte relação com suas composições, momento no qual Égon pode manifestar o que se passa na profundidade de seus pensamentos.


Na adolescência, vivida no começo da década de 2000, o jovem teve seu primeiro contato com um movimento musical ativo e ideológico, o punk. A máxima ‘faça você mesmo’ fortaleceu sua relação com a música, atraindo-o de vez para o cenário musical que o rodeava.


Égon e o Leão, música como consequência da vida

Em 2013, Égon já não levava mais a música tão a sério. Não almejava manter uma banda ou se apresentar com as suas composições. Entretanto, nunca deixou de transformar seus anseios e angústias em canções. Após uma mudança de cidade, que o levou para Porto Alegre, o jovem artista se vê, sem perceber, regressando para o cenário cultural. “Eu não sei dizer ao certo o que me trouxe de volta. Mas então, em Porto Alegre, vivi um período de incertezas e muitas dúvidas. Com o intuito de cantar meus sentimentos, nasce o Égon e o Leão”.


O projeto começa com o lançamento de alguns vídeos no YouTube, nos quais aparecia sozinho apenas com o violão. Com o passar do tempo, o som do projeto foi se sofisticando, transformando-se em algo mais complexo, como é o exemplo da forte presença do teclado na faixa “Laranjeiras”, contribuição de um dos mais reconhecidos musicistas da cidade, Marcelo Vaz. A canção composta por Égon conta ainda com a produção e gravação de Bruno Pires – também baixista do projeto – juntamente com Cleiton Oliveira na guitarra e Rodrigo Fredo na bateria.


Para Égon, não apenas o nome deste projeto, mas também suas músicas, estão repletas de simbolismos. “Na época em que eu quis começar o projeto, o leão simbolizava um animal que me perseguia, uma analogia aos meus demônios, mas na verdade, a explicação é uma série de simbologias”, diz. E complementa “Na bíblia, mais especificamente no livro do apocalipse, a figura de Deus é representada por um leão”.


Influências

Além da forte inspiração no modo de encarar a música por parte de seu pai, Égon, escuta e ‘estuda’, diversas bandas de diversos segmentos musicais. “Acho genial de Los hermanos a Racionais MCs”. Além disso, o artista também bebe da fonte de autores do mundo literário para inspirar-se em suas composições, como é o caso do russo Liev Tolstoi.Esse autor sempre me influenciou muito nas coisas que eu escrevia e também me identificava muito com a vida dele”. Outra influência forte em sua carreira foi a banda americana Pedro the Lion.


Mas, além de artistas já conceituados no cenário nacional, o artista mantém em seu hall de inspirações, algumas amizades próximas como Tuty, Zepis e Badih, artistas do rap e hip-hop rio-grandino. Dessa forma, Égon quebra uma barreira entre estilos musicais e as respectivas ‘cenas’, o que contribui para a sua transformação em King Flaco.


A ascensão de um rei: a dicotomia entre o forte e o ‘flaquito’


Em março deste ano, King Flaco faz a sua estreia ao lançar o clipe “Hoje a noite é nossa”, que conta com a participação especial do rapper Badih Hallal. Diferente de Égon e o Leão, nesta faixa, o músico retrata um tema mais imediatista, destoando das propostas reflexivas e românticas do projeto anterior. “Essa mudança tem sido muito massa, dentro da proporção de artista independente que não vive só de música, só que diferente do que já produzi antes. King Flaco tem sido muito mais um lance de personagem mesmo”.


Segundo Égon, o termo que gosta de usar é “egotrip”, justamente em função das letras e do próprio visual relacionado ao King Flaco pertencerem a uma viagem interna, para o interior de seu próprio ego. Dessa forma, o artista pôde tratar e dialogar com temas mais atuais em relação ao modo como enxerga o mundo. “É com ele que eu posso falar sobre autoestima, e outros conceitos mais urbanos e menos “bonitinhos”, como era com o Égon e o Leão”.


Égon reconhece também que essa transformação musical é um grande rompimento com tudo que tinha em produção anteriormente, aproveitando o momento para mostrar que nada do que o artista já pôde produzir o limita a atuar dentro um determinado segmento cultural. “Se trata um pouco daquela questão de não querer me vincular a nada. Da mesma forma, o Flaco me permite abordar coisas novas. Assim posso me firmar como um cantor pop”.


Mas, quem é King Flaco, afinal?


“Sempre tem uma pergunta, antes era “E o leão?”, hoje é sobre quem é o King Flaco”, brinca Égon. Segundo o artista, King Flaco seria uma espécie de personagem, um alterego que fala em seu ouvido. “É a minha própria esquizofrenia”. O nome tem origem na percepção de Égon sobre a ostentação, adicionando um pouco de ironia ao lidar com o tema. Assim, o artista uniu dois termos “King”, que em inglês significa rei – alguém que ostenta riquezas e poder – e o “flaco”, que em espanhol é usado para definir aquela pessoa esguia e fraca, geralmente uma pessoa alta e magra. Dessa forma, o projeto aborda temas como a dualidade, a ostentação e a simplicidade das coisas. Como o próprio cantor diz, o projeto se trata de uma “Monarquia Anárquica”.


A transição

Para Égon, algumas coisas fluem de maneira simples e natural. O surgimento de Flaco não é diferente. “Eu estava em transição do Égon e o Leão. Gravamos um disco que acabou não sendo lançado. Rodamos muitos músicos em função de problemas com bateristas, em seis meses tivemos três caras na posição”, explica. Em função de problemas internos e também de uma mudança na vida do cantor, a temática das canções começou a mudar. “Antes eu falava de um rolê com a mina que eu queria casar e depois eu escrevia sobre cocaína. Tive que ter a maturidade de pensar que aquilo já comportava mais o que eu queria falar”. Segundo o artista, Égon e o Leão não está finalizado, mas sim pausado no momento. “Esse é um projeto sem fim, se um dia meu foco voltar a ser esse, posso juntar uma banda ou só pegar o violão, essa sempre foi a praticidade do Égon e o Leão”.


Ostentação: “É só dinheiro”


A ostentação é um tema constante em seu novo trabalho, por isso, Égon nutre fortes opiniões sobre o consumo atual e trabalha algumas dessas questões, principalmente, nos aspectos visuais de seus clipes. “A ostentação virou um bagulho ruim porque a classe média teve a oportunidade de consumir também. Ao aumentar nosso poder de consumo as pessoas começaram a questionar isso”, expõe. “Não vejo isso com olhar negativo, mas é claro que não estamos entrando nos aspectos sobre consumo consciente e toda essa outra esfera do debate”, completa. O artista ainda aponta que sua ideia não é provocar a discussão, mas simplesmente “dar um grito de independência de eu posso, eu quero, eu paguei por isso”.


Para o compositor, suas canções se referem ao próprio mundo, junto de seus amigos, e com isso pretende sempre simplificar as coisas como a própria ostentação: “Cara, é só dinheiro, é só pagar por isso, não é nada demais”, conclui. Em sua visão, as novas gerações não cantam tanto sobre as questões populistas, mas sim sobre eles mesmos e sobre suas particularidades, e, dessa forma, utiliza da música e da cultura para manifestar a sua voz sem maiores pretensões.


O que esperar de King Flaco para o futuro?



Entre muitos planos e objetivos, Égon explica que sua intenção é fazer os melhores clipes possíveis. “Principalmente depois que eu encontrei o Anderson (Eberts Films), a minha sede por isso ficou maior”. Para ele, antes sua principal preocupação era colocar seu trabalho na rua, divulgá-lo e fazer shows. No entanto, sua maior vontade é concentrar-se no processo criativo e produzir mais conteúdo. “Quero poder me focar nessas canções que estou produzido e deixar que as coisas tomem um rumo natural”.


Atualmente, Égon está pré-produzindo um novo clipe, o qual pretende lançar até o fim do ano, juntamente com duas novas músicas. O artista ainda revela seu desejo de realizar, em 2019, um ou dois shows para divulgar seu conteúdo, e arrisca comentar sobre a possibilidade de, ainda no mesmo ano, brindar-nos com o lançamento de um disco ou uma mixtape.


Para quem quiser conferir o trabalho de King Flaco, suas músicas e clipes estão disponíveis nas plataformas Spotify, Youtube e Deezer.



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