Ideias para sobreviver ao fim do ano

Esse título eu adaptei da capa de um livro que é um tesouro: “Ideias para adiar o fim do mundo”, do Ailton Krenak, intelectual e líder indígena necessário pro nosso contexto atual. Krenak fala basicamente que, se quisermos nos manter vivos e vislumbrar um futuro possível, é preciso que a gente aprenda a viver com resistência. Com amor. E em conexão com as outras pessoas, com os animais, as plantas, os lugares e a sabedoria ancestral. Porque natureza é isso tudo e somos nós. E sem essa conexão, meu velho, é coisa de algumas décadas pro negócio desandar de vez e virar Mad Max (com um roteiro bem mais hardcore). Aliás, não é de hoje que as lideranças indígenas vêm nos alertando sobre o fim do mundo (pelo menos do nosso). E alguém ouve? Não. A gente conseguiu fazer uma lambança tão grande com tudo que eu mesma não consigo ver uma saída imediata. Pelo contrário. Estragos dessa intensidade costumam levar décadas pra reverter ou minimizar. Enfim, o que vim aqui dizer é: tá feia a coisa. Estamos todos exaustos de 2019. Nossas relações se desgastaram e as que resistiram bravamente foram alimentadas com energia, paciência, ternura e uma dose generosa de boa sorte. A loucura ultrapassou todos os limites, e a perversidade atingiu níveis tão absurdos que deixariam Ivan, o Terrível com vergonha do seu coração “mole”. Como sobreviver ao fim desse ano bizarro, recolher os cacos e arriscar desejos pro ano novo? Qual orixá regente, cor pra usar na virada, reza, simpatia ou promessa que vai dar conta dessa nossa angústia? Eu adoro listas e pensei em uma. São ideias simples e muito profundas, que imaginei primeiro pra mim e que agora compartilho. São reforços positivos de tudo de bom que eu vi nesse ano tão duro e que talvez possam nos ajudar a construir alguma coisa diferente desde a raiz. Lá vai:


1) Manter e alimentar os vínculos que nos fazem bem. Não dá mais tempo pra insistir em laços que já provaram não ser bons pra nós. Se a chave não abre, não é a porta certa, já diz o ditado. Então o jeito é valorizar e alimentar os poucos (ou muitos) que correm com a gente e que já demonstraram querer a nossa companhia pelas trincheiras da vida. Sem mendigar afeto ou reconhecimento nesse fim de ano e em 2020. Seja de quem for. A propósito, reciprocidade é a chave.

2) Aprender a dizer não. Não quero, não vou, não concordo, não acabei de falar, não posso fazer isso agora, hoje não, não é não. Parece simples, mas a gente tem uma baita dificuldade de negar coisas aos outros. E, ao aceitar o que não queremos, negamos a nós mesmos. E de tanto dizer sim pra tudo que não queremos, vamos perdendo pedaços de nós todos os dias. E a gente precisa estar inteiro.


3) Reduzir o lixo, recusar os plásticos, cuidar do consumo e da alimentação. Repensar nosso ritmo e padrão de consumo e do que consideramos saudável é libertador. Aqui não tem espaço pra falar das razões de fazer isso, até porque já as conhecemos bem; mas pra reforçar a ideia de que SIM, é possível, é importante e é necessário comprar menos e alimentar menos esse sistema cruel de grandes empresas que governam como se fossem políticos, escravizam e destroem como se fossem donas do mundo. Se é pra consumir, que seja (quando der) dos amigos, na nossa cidade, nas feiras, na rua, onde a vida de verdade acontece.


4) Entrar em conexão. Cada um que traduza como quiser. Mas a gente precisa voltar a se conectar com o que é nosso, com as nossas memórias, com a natureza, com a sabedoria popular ancestral, com os povos que foram silenciados violentamente, até que todos nos tornássemos zumbis vulneráveis, criaturas sem autonomia, sem passado e sem história, que não enxergam o óbvio e são capazes de cair nas armadilhas que constroem.


5) Não aceitar violências. De nenhuma natureza e de jeito nenhum. Sejamos intolerantes com o que realmente importa. Com gente e atitude agressiva não dá pra ser legal. Tem que denunciar, se afastar, mandar pastar e riscar da vida.


6) Amar. Se expor. Lutar. Ter a coragem de amar quem quisermos, nas condições que desejarmos e da maneira que escolhermos. Falar o que pensamos, expressar nossa indignação, expor nossas ideias com argumentos sólidos. Engrossar a voz da rua, a voz dos que sempre estiveram na rua lutando pelo que é justo e bom. Lutar com eles, lutar sem medo, lutar como se disso dependesse a nossa vida. Porque depende. E porque a esperança é coisa das mais bonitas que a gente já inventou. Feliz ano-novo!


Juliana Cruz é professora de História, feminista, cervejeira e cassineira apaixonada.

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