A mala, por Lirba Alaniz

Este texto foi produzido a partir da Oficina de Escrita Criativa Sobre tempos e espaços do contar.


Assistia a tudo, principalmente, às brincadeiras inocentes. Era como se fosse sempre domingo. Não havia relógio para controlar o tempo. Jogar bola, brincar de esconde-esconde, pular na corda. A noite os encontrava na rua. Aí então era o momento de entrar, tomar banho, jantar, ouvir histórias e dormir. No dia seguinte, tudo recomeçava. Era só alegria. Até o dia em que, sem saber como nem porquê, alguém teria deixado no portão, uma mala.


Ninguém se atrevia a abri-la. Era tudo muito estranho. Quem largaria uma mala num portão? E por quê?


Podia ser que alguém, em perigo, a tivesse deixado ali para depois vir buscar. Eles, então a levaram para dentro.


Os dias se passavam sem que ninguém aparecesse para resgatá-la. E as crianças não se animavam a abri-la.


Não brincavam mais, não se ouviam suas vozes, sua correria, sua alegria.


Faziam mil conjecturas: teria brinquedos? Ursos de pelúcia? Teria joias, assim como os baús dos piratas? Teria roupas antigas? Roupas de bebê? Teria dinheiro?


Mas... o mundo está cheio de crianças curiosas. Uma noite, num momento em que os adultos estavam ocupados ou distraídos, um dos pequenos abriu a mala e para sua surpresa descobriu ali dentro uma carta, ou melhor, um bilhete que dizia apenas: “Esta mala pertenceu a uma pessoa muito boa que viveu para fazer o bem. Quem encontrar a mala e ler o bilhete deve fazer algo de bom para alguém que precise muito e depois largar a mala em outra porta. Com o bilhete, é claro!”


Ficaram um tempo se olhando, pensando: o que fariam? Para quem? Até que tiveram uma ideia. Como estava perto do Natal, eles juntariam os brinquedos que não usavam mais e levariam a um orfanato que ficava próximo. Seria uma alegria para as crianças pobres e isso os faria felizes também.


E assim o fizeram: juntaram brinquedos, algumas roupas, calçados, algumas guloseimas (toda criança adora!). Contaram com a ajuda de seus pais que fizeram contato com uma instituição que abrigava órfãos. Foi uma festa! Um momento muito especial para todos. Eles não sabiam, nem imaginavam quanto era prazeroso exercer o bem.


A mala, conforme informava no bilhete, seria entregue anonimamente para outra pessoa que faria também uma boa ação. Eles pensaram em levar até uma casa próxima, onde havia pessoas muito boas, que certamente fariam o que era pedido no bilhete.


Apesar de serem tão jovens ainda, já sabem da importância de fazer o bem, de ajudar aqueles que não tiveram a mesma sorte que eles. Nascidos em um lar bem estruturado, onde crescem cercados de amor, carinho e bons exemplos. São gente do bem! Sinto muito orgulho por estes pequenos. Minhas paredes guardam boas lembranças. Eu os vi nascer e agora que estão crescendo, vejo-os assim: cheios de bons propósitos. São gente do bem!



Lirba Alaniz

Sou de Rio Grande. Professora, formada em Letras e Biblioteconomia pela FURG. Adoro ler. Vivo cercada de livros desde muito pequena. Escrevo poesias. Participei de um grupo de poetas, denominado "Girassol", por quase quinze anos. Escrevo crônicas e contos infantis. Gosto de boa música. Participo de um coral. Descobri que cantar é uma terapia maravilhosa. Gosto também de desenhar e pintar. Desenho faróis, navios, mandalas.

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