Aquilo que procuro e não encontro

Atualizado: Set 9

O que é isso que de tanto buscar, não me dou por achado? Que coisa é essa que nasci para procurar e não encontro? O que é isso que não achei antes de meu nascimento, onde estaria meu espírito que sabe mais do eu? O que eu vim fazer aqui? E esse silêncio numa região da minha cabeça? Desconvencido de que seria uma verdade que busco, abandonei deus a ver navios. Não pude aportar nesse caminho abstrato. Preciso das pedras. Preciso da poeira.


Viver perdido, pensei ser possível. Depois de muitos anos, a vida parece caminhar sobre rodas. Não existe um chegar, não existe um fim. Sempre estamos onde estamos. E isso é o inferno para mim: estar. Não me contento no repouso, não me contento no andar. O que buscarei? Temo que a minha condenação pregressa à vida seja pela vida caminhar perdido num círculo de camundongo. Tenho pena de Sísifo. Se pudesse eu revogaria sua pena. Escrever, para mim, é revogar a minha própria condenação futura.


O que é essa coisa (é uma coisa)? Que me tira o sono de madrugada, de manhã, de tarde? Que me rouba o olhar? Que entretece nos dias mais tediosos. Se fosse uma palavra eu poderia criá-la. Expressar nela tudo que penso ser tudo. Mas ainda que eu pudesse dizer tudo, como bem disse Adília, não poderia dizer tudo. E nisso se finda meu viver: andar atrás de um boi cujo nome, fisionomia, idade, feição, desconheço. Cuja história é mera especulação. Cujo destino é um açoite do vento indicando possibilidades aos meus ouvidos. Não tenho os dons necessários para encontrar-te, ó coisa, misteriosa e inefável. Que a minha consciência se desespera tanto para capturar um vislumbre teu que vivo de observar caminhos. Me perco em orações a deuses invisíveis, às Musas esquecidas, aos santos malditos. Nada parece responder-me a dúvida. O anseio. Estou preso no contemporâneo e ele é olhar para o fundo do céu preto, sem estrelas.


Onde está o que procuro e não encontro? Como encontrar aquilo que não se sabe se achei? Abro bem os olhos para ver se me apercebo de um detalhe fugaz, de uma faísca. Vejo-as em toda parte, em tudo. Até nas coisas mais horrorosas. Sobretudo no horror, vislumbro uma face misteriosa, cujos contornos se desfazem feito fumaça. As faíscas iluminam pouco. É ver com os olhos fechados. É sentir a presença de um abraço do vento. Vive à margem do foco, de qualquer atenção presumida. É marginal. É borda. Aquilo que procuro não tem nome, não tem forma, não tem alegria. Aquilo que eu procuro não poderia ser eu mesmo. Me acho em péssima companhia de meus temores e dúvidas. Vim para o mundo sofrer a busca daquilo que não se encontra. Aquilo que só se percebe quando é tarde demais.


Ó Sísifo, ensina-me a obediência da minha punição. Não tenho mais medo de ser ridículo. Aceito meu caminho de pedras que não formam edifícios. Morrer não completará meus passos, eu sei. Mas a mim acontecem milagres cotidianos. De salto em salto sobrevivo. Falo por hiatos. Enquanto pulo, a palavra que comunico é a esperança do próximo pouso.



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