De quando Concha e Carmen da Silva se encontram

Atualizado: 24 de Out de 2019

Em primeira mão, um conto inédito da escritora e jornalista rio-grandina Carmen da Silva e a novidade da Concha para 2020.


por Andréia Pires


Carmen da Silva em 14/07/1975 | Foto: acervo carmendasilva.com.br

Faz algum tempo venho acompanhando o trabalho de Nubia Hanciau sobre a figura e a obra da escritora e jornalista rio-grandina Carmen da Silva. Semana passada, a professora me contou um pouco dessa história em entrevista. Numa feira do livro recente, tive a oportunidade de cobrir, como jornalista da Secretaria de Comunicação da FURG, uma palestra em que Nubia apresentava o livro A arte de ser ousada. Uma homenagem a Carmen da Silva (1919-1985), de Comba Porto, e já anunciava os preparativos das homenagens que seriam feitas em 2019, ano do centenário de nascimento de Carmen. Naquele dia descobri informações valiosas sobre quem foi essa mulher e o quanto sua história atravessa a desta cidade - Rio Grande - e nosso modo - o dos rio-grandinos, em especial o das rio-grandinas artistas, muito especialmente o das rio-grandinas escritoras dos anos 2010; como eu - de pensar e agir no mundo.


Professora Nubia Hanciau, responsável pelo projeto “Carmen da Silva, uma rio-grandina precursora do feminismo brasileiro”, do PPG em Letras da FURG | Foto: acervo pessoal

Como leitora e aprendiz de feminista, quis ter todos os livros de Carmen; não os encontrei. Como editora da Concha, uma casa de publicação que tem por objetivo lançar obras de escritoras e escritores daqui e/ou com vínculo com a cidade, quis demais ter o trabalho de Carmen integrando nosso catálogo. Seria incrível publicar e ajudar a popularizar estudos críticos sobre a literatura de Carmen, mais ainda um texto todo dela, criativo ou jornalístico, tamanha sua relevância. O sonho ainda é grátis. E potente. Mais ainda quando em conjunto. Meses atrás, conversei novamente com a guardiã do acervo de Carmen sobre a agenda comemorativa do centenário já em curso. Foi quando Nubia me contou que estava sob seus cuidados material inédito da autora. INÉDITO. São contos em espanhol, publicados na Argentina e ainda desconhecidos no Brasil, e outros contos em português, que até hoje não foram reunidos em livro, entre outros textos. E, que encontro: começamos a combinar a edição dessa obra pela Concha, o que venho contar aqui com uma alegria que não cabe no meu metro e meio: em 2020 vai ter Carmen da Silva em livro, sim! Com organização de Nubia Hanciau, os contos de Carmen da Silva traduzidos pela própria autora e por professores brasileiros e espanófanos, somados aos escritos diretamente em português, vão chegar às mãos dos leitores no ano que vem.


Para comemorar a boa notícia, divulgamos um conto inédito de Carmen da Silva, traduzido do espanhol por Isabella Mozzillo (UFPel).



DOMINGO


Entreabre a porta e espia a sala. As persianas fechadas até a metade mergulham a peça numa quase penumbra dourada. Sobre o tapete, aos pés da poltrona verde, um retângulo de sol. A alegria explode nele, silenciosamente, a alegria acende lentas labaredas em seu peito. Sol, sol amarelo deitado sobre o chão. Poderia apoiar seu rosto na esteira do sol, adivinha na sua pele uma carícia felpuda. As folhas de uma árvore carcomem de sombra um dos lados do retângulo. A felicidade o habita, uma felicidade envolvente e difusa, que nasce dos meios-tons, da quietude. Domingo, domingo e sol aprisionado entre os pés retorcidos da poltrona.


Se o pai estivesse, iriam para o campo. É linda a casa, é linda a liberdade dos pés sobre a colina, e no entardecer o ar fica repleto de ruídos: grilos e rãs. Mas a viagem. Deixam-no no banco de trás, bem adormecido. Sozinho entre as garrafas e os pacotes de fiambres, como um pacote mais. Um frango assado, com as patas tesas e os braços cruzados no peito. Sou um franguinho assado, de pele castanha e crocante.


Seu pai está ausente e hoje o almoço foi meio louco, a sopa de ontem à noite e carne fria e queijo e uma fatia grande de pudim. Seu pai está ausente e ela lhe pertence por inteiro. Fala com ele, ri com ele, afunda a ponta dos dedos no seu cabelo rebelde. Ah, você dulcíssima.

Ouve a porta do fundo. É a empregada que vai embora. Sozinhos. Domingo, hora da sesta e a casa submergida na bruma de ouro e no silêncio. Ah, esse fogo, essa felicidade que brota dentro em amplas volutas serenas.


- Querido, o que está fazendo aqui sozinho?


Isso não exige resposta, a frase é apenas um contato, um tipo de carícia verbal. Sorri com sua boca infantil que começou a se despovoar.


Mamãe não vai sestear. Vestiu-se de azul, tem cheiro de maquiagem, de perfume. O vidrinho em forma de harpa que tem no seu quarto: estonteante, instila uma cálida embriaguez nos sentidos. Algo como um desejo de dormir, mas mais vivo, mais imediato, inquietante.


- Mamãe, vamos brincar de quê?


A tarde é deles, vão planejá-la juntos, minuto a minuto, como morosa fruição. A tarde dominical se espraia diante deles, uma planície sobre a qual levantarão sua felicidade como uma cidade sonhada.


Ela belisca suavemente o rosto dele.


- Você vai brincar na pracinha. Tem que fazer exercício. Para crescer, ter músculos, ficar forte.


Curva os braços numa paródia de grossos bíceps masculinos.


Nesse momento algo se agita nele. Muito tênue, levíssimo, campainha de alarme, sombra de inquietação. O que houve? Uma nota falsa, talvez? Mas não, ah, não. Tudo é perfeito. Perfeito e liso e sem fissuras. Não há artifícios, sua mente não inventou esse domingo, esse perfume, a esteira de sol sobre o tapete. E o almoço a dois, como a enorme fatia de pudim e de vez em quando os cotovelos sobre a mesa. Inadvertidamente no começo; depois de propósito, como prova, para afirmar a si mesmo que este é um dia diferente. E é, sem erro possível. Repele o íntimo estremecimento que mente presságios.


- E você? Vai levar um livro?


- Pode ser, mas mais tarde. Agora não posso, estou esperando a visita do meu tio. Ele tem que me falar de uns assuntos.


- Seu tio?


Tinha pensado que só as crianças têm tios. Percebe sua puerilidade. Os adultos são crianças que cresceram e os tios ficam velhos, mas não é obrigatório que desapareçam. Ah, como sou bobo, os tios não se diluem no ar.


Essa visita esclarece tudo. O vacilo, a aparente nota falsa. Tinha dificuldade de dizer que haveria um obstáculo, um pequeno intervalo para enfrentar. Agora ela já lhe disse e ele está contente: a confissão restabelece a diafaneidade do clima. De qualquer jeito, os domingos são longos e os tios são chatos, a gente se desembaraça logo deles.


A campainha toca.


- Seu tio, mamãe. Ele é parecido com você?


Ela ri, ri com seus dentes bonitos e seus olhos que diminuem.