Desde o litoral, por Cris Marcos

Este texto foi produzido a partir da Oficina de Escrita Criativa Sobre tempos e espaços do contar.


Lembro dela ainda pequena, quando me visitava nos verões, e ainda posso escutar sua risada tímida em meio aos castelos de areia cuidadosamente decorados com pinguinhos de lama. Depois sumiu por um tempo, voltou com olhos tristes, até que o tempo passou e virou uma espécie de ritual: todo ano ela vem me ver, tira a sandália e agradece por estar de volta.


Quando ela vai embora, eu fico pensando: será que voltará? Passam-se os dias, o sol se põe mais cedo, o vento começa a cortar. Passam-se os meses, minhas companhias se tornam escassas e comigo ficam apenas os de sempre, os andantes, que chegam gelados em seus casacos porque precisam de mim para respirar. Mais um pouco e fico sozinha, em tempos de chuva o acesso é difícil, já sei que será assim... Até que surge um raio de sol e começa tudo outra vez. Mas esse ano, será que ela virá?


Ela veio. Chegou sozinha mais uma vez. Em uma manhã de domingo, sem sandálias, me observou sorrindo. Molhei seus pés, curiosa com o que trazia. Tinha nas mãos uma mala e, nos olhos, ares de novidade.


Lembrei da tarde em que dormiu no sol e acordou vermelha, das vezes que esteve alegre e das vezes que nem tanto. Lembrei do dia em que um siri pegou seu dedo e de seu terrível medo de água-viva. Das suas visitas e cada uma de suas despedidas. E de todas as suas transformações. Mas e agora, afinal, o que acontecerá?


No seu entorno vi crianças brincando, cachorros correndo e conchas dispersas pela areia, mais adiante um vendedor de milho verde empurrando seu carrinho e motoristas procurando um lugar para parar, mas ela parecia não perceber mais nada, envolta apenas em seu pensamento. Observei-a sentar no chão de areia escura e abrir a mala. Mexeu em fotos, roupas e anotações, sem pressa. Riscou um caderno, chorou emocionada, rabiscou uns poemas e finalmente a escutei dizer a boa nova:


- Cassino, agora eu vim pra ficar!



Cristiane Marcos nasceu em Rio Grande, formou-se psicóloga na UFSC e é professora na FURG desde 2012. Gosta de Mafalda, Chico Buarque, teatro, Florianópolis e de conversar, não necessariamente nessa ordem.

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