Dizer Tudo não é dizer Tudo

Às vezes não, mas sempre, me dá uma vontade de sair escrevendo ensandecida. Tenho um desejo profundo de não fazer sentido algum. Que assim me acho. Que assim me tenho. Quero porque quero construir, não palácios, mas algibeiras onde guardarei sentimentos felizes. E caldeirões onde cozinharei sopas dos meus tormentos. O tempo é uma mão que guia para o penhasco. Não quero cair, não quero! Mas ele insiste. Docilmente, quer dizer, aos poucos, afaga-me os ombros, dá-me um beijo na testa e me vai conduzindo ao abismo de mim mesma. Que é quando não me encontro, mas me vejo no espelho da vida e me desfaço inteira.


É para isso que nasci: para não saber de meu rosto. Se me pintarem, amigos pintores, o façam sem olhos, boca ou nariz. Ou uma alma por cabelos brancos. Que não possuo. Sou muitas. Tenho muitos rostos. Eu mesma não saberia reconhecer-me na rua, caso me perdesse de mim. Estive só toda a vida. Estive só sendo muitas. Sou muitas solidões desencontradas. Aglomerada solidão. Me constituí de visões, reflexos. Mas não sei de meu deus. Será ele eu? Sou eu a face oculta da lua? Pois não se aproxime muito, posso cegar-lhe os beijos dados. Posso secar as fontes de tua água salobra. Dá-me, dá-me de beber de seu sorriso. Estou farta. Estou alta. Gostaria, vê? Gostaria muito de não fazer sentido. Que assim me encontro. Que assim me acho.


O que seria da vida se ela tivesse um sentido? Não é de mim que falo, mas dela. Essa coisa incrustada do Nada. Mas o que ele é? Nada é o cão do vizinho que late a noite toda, mas não o vejo. As sombras da noite que me visitam a cama e não distingo fisionomias. Eu sou a Vida! Eu sou o Nada. Deus sou eu, o Rei, o Xamã, o Medo, a Morte. O Tudo é que há no meu umbigo, quando estou sozinha e nua nas noites de calor. O Nada sou eu sorrindo ou passando café. É nele que repousarei a cabeça cansada, os passos mal dados, os abraços forçosos. As palavras todas que atirei contra as pessoas. Essa a minha herança. O que deixo para o mundo, esse vosso contexto, são flechas temporárias. O tempo é o que corrói o medo, a dor. A vida, Naná, é não ter sentido para sermos no lugar dela. Veja, eu mesma, a Vida, não poderia caber numa palavra, ainda que você, minha amiga, acredite nas palavras. Ou na Palavra. Deus não é o Verbo. Lembre-se disso, sempre. Deus não é dizer. Nunca. Deus é o Nada. Não que ele exista ou não exista. Isso importa?


Quantas coisas mesmo se fazem urgentes? Deus? Acaso ele está aqui-agora? Ele está em Tudo. Ele está no meu umbigo. Fica sendo, deus É e ponto. Naná, não me entenda mal. Não entendo de deus nem do diabo. Se bem que do Tinhoso entendemos todos melhor. Porque somos não-ser, somos aquilo que sabemos não ser. E não somos deuses. Apesar de sê-lo. Digo, deus somos nós. Entenda. Mas não somos Ele, o Todo-Poderoso Amor. O Inenarrável. A nossa semelhança com ele é não ter fim. Não sendo Ele, somos o que Ele não é. Somos o que somos sendo diabolicamente contradição. Somos mais diabos que santos, isso é bastante verdade.


Mas, Naná, já avistou uma pessoa desconhecida oferecendo um sorvete para uma criança pequena? Isso é deus, Naná. Isso é santo. E puro. Não se vê mais isso hoje em dia, Naná. Pelo menos de minha solidão não tenho avistado tantos milagres assim. E eles não eram raros. Essas coisas dos tempos das fadas. Elas, sim, existem, Naná. E são feiosíssimas. Umas pequenas monstrengas. Sabiam que dizem que elas trocam crianças por tocos? Pois é, Naná. Estamos mais para fadas mesmo. Elas enfeitiçam os pais e põem um toco no berço, para eles não sentirem a falta da criança roubada. Elas somem com os pequenos floresta adentro. Não sei o que fazem. Se caldo, se assado. Devem comê-las. Só sei que, talvez, o feitiço do toco seja uma forma de retribuir as mentiras que contamos para nós mesmos. Não é? Não concorda? Talvez prefiram viver assim: adorando tocos pequenos, vestindo-os com roupas bonitas, passeando-os nos parques. Se uma pessoa pode ver o mundo como ele é, elas veriam muitos toquinhos sendo passeados por pais enfeitiçados. Como posso dizer uma coisa dessas? Dizendo. Porque dizer nunca é divino.


Dizer é dividir o som em pedaços e isso é diabólico. O Divino não é verbo nem palavra. É outra coisa não nomeável. Não acha? Não tem que fazer sentido, Naná. Eu bem que quis não fazer sentido algum que assim eu seria eu, me acharia refletida no rio. Não. Não guardo espelhos em casa. Você ri. Eu sei que pena que eu sou supersticiosa demais. Mas como não ser isso nesse mundo? Não sei você, mas bem que eu acredito nas bruxas, nos duendes. Vivem roubando as coisas aqui em casa. Começaram pegando canetas, depois passaram a praticar furtos maiores. Um dia deu de sumirem com meus óculos. Pense que fiquei duas semanas sem ler. Foi questão de por bolo branco e leite na grama do quintal, entretanto. Fiquei sendo amiga deles. Eles nãos se mostram, não. Não querem ser vistos. Alimentá-los basta. E trabalham por mim. Assim penso. Não estão mais buscando gozação comigo não, Naná. As coisas da sua vida não somem?


Eu queria sumir, mas não morrer. E eu sou lá mulher de se deixar enterrar, Naná? Quero mesmo é ir desaparecendo. Até que um dia. Pluft! Não existo mais. Morrer é travessia. E ando tão cansada de mim mesma! Tão cansada das andanças. Eu sei, eu sei. Passo a vida presa aqui nessa casa, longe das pessoas o quanto é possível. Mas ainda caminho, não vê? Me enveredo por tantos caminhos que não sei de cor. Atormentada por palavras dos outros. Alimentada também, devo admitir. É um sem-fim. Olha, o Purgatório existe, Naná, e são muitos! Veja bem, se não somos o Inferno de outro mundo, não sei a serventia disso tudo. Eu sei, eu sei. A vida não tem que fazer sentido. Eu mesma procuro não fazer sentido. Começo num assunto acabo sempre em outros. Esse meu desatino de mudar um passo ao levantar da cama e ser puxada pelos pés até outros cantos. As palavras fazem isso comigo. Uma puxando a outra como um trilho de formiga carregando pedaços do Sentido. Ou uma corrente entrelaçando um gomo ao outro. Um cabelo enorme sendo trançado. Uma após outra. E assim passo sem dormir muitas horas. Estou cansada. Elas me fatigam demais. Agradeço, bem lá no fundo, aos duendes por terem dado sumiço nos meus óculos. Tirei umas férias de mim mesma. Não se engane, Naná, ler é sempre desvendar a si mesma. Por isso é tão perigoso! Não faça isso se o que você quer é paz. Ler nunca é paz. Pelo menos não para mim. Sempre foi o pretexto de uma angústia. A minha, a de outros, a da vida, a do mundo. Mas sempre angústia.


Alguns acreditam que o contrário da angústia é a esperança. Sabe por que deixei de frequentar a terapia, Naná? Eles tentaram me dar esperanças. E não pude admitir isso. Era uma violência tamanha! Tenho pensado que ela, a esperança, é uma concepção do futuro. Li isso em algum lugar que não me lembro mais. Possuí-la adianta a crença no humano. No melhor de nós mesmos. Ter ou não ter indica o que você construirá do futuro. Do que ele se constituirá. Cochilei muitas vezes num pátio esperançoso e sabe o que acometeu? o futuro. Ele que se adianta por ela. Vivi muito tempo olhando o horizonte do tempo, antecipando mortes, saudades, ausências, términos. Esqueci-me do leite no fogo. Deixei cair tantas xícaras, Naná. Uma perda lastimável. Mas à vezes eu só queria que tivessem esperanças por mim. Assim seria mais cômodo. Não. Mais fácil não. Mais prático. E não sei ser prática, Naná. Sou confusa. Lembra? sou a face oculta da lua e do cristo -- esse que dorme comigo à noite. Nas noites de lua-ausência.


Tenho tido muito medo de estar só e nem deveria ser um grande problema a não ser pelo fato de que é uma condenação e não uma escolha. Fui sempre sozinha. Não importa, estarei só e às vezes isso é bem feito. Às vezes, Naná, me dói um pouco estar sempre buscando companhia nas palavras. E um ódio me sobe pelas pernas.


Há dias que tenho muito ódio, Naná. E há dias que não me importo. Tudo bem se os poetas não têm nada a dizer; quem sou eu pra exigir das pessoas aquilo que elas não possuem? Há dias que me odeio tanto, Naná. E há dias que me suporto. Talvez seja preciso voltar no tempo e pegar-me nos braços. Foi tanta judiação que até hoje não sei perdoar os percalços da vida, os tropeços na rua. Há dias que choro por ler duas linhas, mas eu sei muito bem quando duas linhas contém um abraço apertado ou uma repreensão catastrófica. Ando procurando dividir meus tormentos com as palavras, mas elas mentem muito, Naná, não por maldade, mas por fingimento. Nunca acredite nos poetas. Há coisas que só se pode ler em livros. E há coisas que não se pode achar por escrito.




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