Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou

Atualizado: 25 de Out de 2018



Começos são sempre complicados. Diante de uma folha em branco, nem se fala. Fui convidada pela Andréia Pires para compor o quadro de colunistas da Concha, com liberdade total para escolher o livro comentado. Aceitei na hora, mas esqueci como é difícil começar a falar sobre livros, principalmente aqueles que nos emocionam, porque a linguagem pode se confundir com a cadência das batidas do coração e no fim não se diz nada.


A minha primeira resenha é complexa por se tratar de uma autobiografia escrita de tal forma que quase nos dá a impressão de que todas aquelas coisas horríveis foram sofridas por letrinhas numa página, por um vulto na imaginação do autor.


Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou foi o livro da TAG-Experiências Literárias do kit de setembro. Escrito há quase 50 anos, encontramos nessa obra questões muito atuais, infelizmente: racismo e abuso sexual, para citar alguns.


Antes de receber esse livro, eu não fazia a menor ideia de quem era a Maya e isso me fez sentir tão, tão mal! Como eu ainda não havia conhecido essa mulher?


A obra é a primeira autobiografia (de sete) da autora, abarcando o período entre 1931 a 1945, portanto, da infância até o final da adolescência, uma história conturbada por um histórico de preconceito, atravessado pelo contexto da guerra.


No entanto, a maior batalha enfrentada por Marguerite Anne Johnson (Maya é seu apelido, dado pelo irmão Bailey) é muito anterior a seu nascimento: tem a ver com o racismo, levando a um sentimento de completo não pertencimento. Isso tudo nos Estados Unidos do século XX, onde o espaço dos brancos e o dos negros era muito bem delimitado. Quem cruzasse a fronteira teria de arcar com as consequências.


Maya teve uma carreira notável. Não foi apenas escritora: foi jornalista, poeta, roteirista, cantora, atriz, diretora; lutou ao lado de Malcom X e Martin Luther King Jr. em prol dos direitos dos negros, das mulheres e de todos aqueles preocupados em melhorar a vida dos cidadãos na América.


O título Eu sei por que o pássaro canta na gaiola foi inspirado em um trecho do poema “Sympathy”, de Paul Laurence Dunbar:

I know why the caged bird sings, ah me,

When his wing is bruised and his bosom sore,—

When he beats his bars and he would be free;

It is not a carol of joy or glee,

But a prayer that he sends from his heart’s deep core,

But a plea, that upward to Heaven he flings—

I know why the caged bird sings!


Essas informações prévias sobre Maya e o título do livro, vale ressaltar – se não for tarde demais! – estão na revista constituinte do kit de setembro da TAG.


A tessitura dessa autobiografia mostra toda a sensibilidade de Maya Angelou para lidar com temas tão pesados como o racismo e o estupro, sofrido quando ela tinha apenas oito anos. Ela lança mão de diálogos, situações imaginadas (mas que, talvez, não tenham acontecido exatamente daquele jeito), metáforas bem construídas, nada de combinações desnecessárias, palavras medidas para falar de uma dor tão grande, enfrentada durante grande parte de sua vida.


A meu ver, um livro – quando é bem escrito, instigante e honesto – é sempre a melhor propaganda dele mesmo e dispensa palavras de um leitor atento, que se propôs a ler aquelas páginas com compreensão, seriedade e amor à arte. Por isso, vou destacar alguns trechos emocionantes para mim.


O livro é dividido em 36 capítulos, porém, antes da narrativa propriamente dita, há uma espécie de prólogo não anunciado, no qual Maya conta sobre uma apresentação sua para um grande público na igreja, o que a deixa muito nervosa, perdendo o controle sobre as palavras. Ao fim desse episódio, ela declara:


As pessoas não ficariam surpresas quando um dia eu acordasse do meu feio sonho negro, e meu cabelo de verdade, que era longo e louro, assumisse o lugar do capacete crespo que Momma não me deixava alisar? [...] Elas não entenderiam por que eu nunca peguei sotaque sulista nem falava gírias comuns, e por que tinha que ser obrigada a comer rabo e focinho de porco. Porque, na verdade, eu era branca e uma fada madrinha cruel, que sentia uma inveja compreensível da minha beleza, me transformou em uma garota Negra, grande demais, com cabelo preto crespo, pés grandes e um vão entre os dentes por onde passava um lápis número 2 (ANGELOU, 2018, p. 14-15).


Eu acho muito forte essa ideia de Maya sobre si mesma. Uma esperança baseada em toda a rejeição sentida por ela, num mundo que sempre privilegiou as meninas com as características mencionadas nessa passagem. Embora a escrita da autobiografia tenha se concretizado na fase adulta (publicada em 1969), podemos perceber uma retomada muito fiel de certas ilusões e impressões. Esse desejo da menina soa muito verdadeiro.

Terminando essa anedota, Maya Angelou dá o primeiro tapa:


Se crescer é doloroso para a garota Negra do sul, estar ciente do seu não pertencimento é a ferrugem na navalha que ameaça a garganta.

É um insulto desnecessário (ANGELOU, 2018, p. 16).


O princípio dessa história se dá quando Marguerite tem apenas três anos e é colocada em um trem com destino a casa da avó paterna, na cidade de Stamps, junto com seu irmão Bailey, um ano mais velho.


Criados por Momma (assim a avó é chamada ao longo do livro) durante boa parte de suas vidas, Maya e Bailey tiveram que lidar desde muito cedo com o sentimento de rejeição, primeiro por parte dos pais, depois, por parte do restante da sociedade. O irmão é o seu porto seguro, Bailey é a fonte de todas as suas expectativas e todo o seu amor.


Momma administra um Mercado e é através da rotina desse local que Maya pode acompanhar a história sofrida de seu povo, analisar o quanto trabalham e o quão pouco recebem. Dos homens brancos, pouco sabe, pois havia uma divisão da área dedicada aos negros e aos brancos.


A história de Maya e Bailey é cheia de reviravoltas: quando as coisas ficam complicadas demais em Stamps, os irmãos mudam-se para a casa da mãe. A figura materna é de extrema importância na vida dos dois, embora ainda sintam um certo desconforto, por conta da primeira rejeição sofrida. É nesse mesmo período que Maya é estuprada pelo namorado da mãe, o Senhor Freeman. É, sem dúvidas, uma das passagens mais emocionantes do livro, pois Maya Angelou não se abstém de contar todos os sentimentos envolvendo a menina de oito anos que, ao ser abraçada por seu abusador, sentiu-se amada e impedida de denunciar aquele acontecimento tão confuso. O evento é tão traumático (sem contar toda a função de ter que testemunhar no tribunal diante do estuprador quando se tem oito anos...) que Maya fecha-se completamente para o mundo. Ao finalmente denunciar o crime, o senhor Freeman aparece morto dias depois do julgamento. A menina pensa, então, que suas palavras são capazes de matar um ser humano. Ela passa, aproximadamente, cinco anos sem dizer uma palavra. Os familiares encaram essa atitude como insolência por parte da menina. Resultado: Maya e Bailey voltam para a casa de Momma, em Stamps.

Nesse retorno, uma mulher terá papel fundamental na vida de Marguerite (embora a menina já fosse uma leitora ávida, admiradora de Shakespeare e Charles Dickens). Sra. Flowers é uma das peças-chave na recuperação da voz de Maya. A poesia foi feita para ser declamada, segundo Flowers. Dessa forma, como pode a menina apreender os encantos da poesia se não é capaz de usar sua voz?


Certo tempo depois, diante de mais eventos complicados, todos relacionados à perseguição de negros, Momma decide enviar os netos para a Califórnia, zelando por sua segurança. Essa é a reação de Marguerite:


Minha tristeza com a partida se restringiu a uma melancolia por me separar de Bailey por um mês (nós nunca tínhamos nos separado), pela solidão imaginada do tio Willie (ele manteve a compostura, apesar de aos trinta e cinco anos nunca ter ficado separado da mãe) e pela perda de Louise, minha primeira amiga. Eu não sentiria falta da sra. Flowers, pois ela me deu sua palavra secreta que conjurava um gênio que me serviria por toda a vida: livros (ANGELOU, 2018, p. 227, grifo meu).


A propósito de um discurso proferido na formatura de sua escola (exclusiva para alunos negros) por um homem branco, Maya também exprime o que sentiu naquele momento:


Era horrível ser Negra e não ter controle sobre a minha vida. Era brutal ser jovem e já estar treinada para ficar sentada em silêncio ouvindo as acusações feitas contra a minha cor sem chance de defesa.

Nós todos devíamos estar mortos (ANGELOU, 2018, p. 205).


Maya é um exemplo de luta. Desafiou preconceitos, traumas irreconciliáveis, foi a primeira mulher negra a trabalhar nos bondes de São Francisco, a primeira mulher negra a escrever para uma produção hollywoodiana. Sua mãe foi de grande influência na hora da superação dos preconceitos colocados a Maya dia a dia. O episódio do emprego na empresa dos bondes ilustra seu papel fundamental na conquista de tudo:


Eu trabalharia nos bondes e usaria um terno azul de sarja. Mamãe me deu apoio com um de seus apartes concisos de sempre: “É o que você quer fazer? Então, nada supera uma tentativa, só o fracasso. Dê tudo de si. Já falei muitas vezes, ‘Não consigo é como não ligo’. Nenhum dos dois vale nada”. Traduzindo, queria dizer que não havia nada que uma pessoa não pudesse fazer, e não devia haver nada para que um ser humano não ligasse. Foi o encorajamento mais positivo que eu podia desejar (ANGELOU, 2018, p. 302).


Ainda, escreveu diversos livros de poemas, livros infantis, além das autobiografias. Sua poesia é pautada em uma experiência do corpo, da alma e do racismo. Uma voz que honra a história de seu povo e não deixa o passado se perder no discurso do opressor. (Mais detalhes ficam para uma próxima resenha). Maya Angelou deixou esse mundo em 2014 e um legado incrível demonstrando luta e resistência.


Para quem se interessou pela autora, o documentário “Maya Angelou: ainda resisto” está disponível na Netflix. Nesse caso, vocês podem ouvir da própria Maya a trajetória narrada no livro e momentos posteriores a ele. No Spotify é possível encontrar seu único álbum, Miss Calypso e algumas compilações de seus poemas transformados em música. Uma preciosidade.


[Fotos da autora]



Suellen Rubira é doutora em Letras – História da Literatura pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Ama livros e música e fotos de animaizinhos fofos.

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