Lusco-fusco

Por volta das dezenove horas, quando as derradeiras faixas de luz solar encontram a sombra ainda tímida da noite, há o instante em que me sento em minha poltrona e realizo mentalmente o balanço do meu dia. De olhos fechados, percorro o meu passado mais recente e, ao desembocar no fim, sinto uma quase satisfação com a vida que levo. Uso o cansaço, sentido no corpo após o expediente de trabalho, para justificar o que faço diariamente, como se o desgaste na lâmina da espada do guerreiro pudesse legitimar o motivo de todas as vezes que ele encaminha-se para a guerra. Concentro-me na minha respiração e no som do vento lá fora. Por um minuto, ouço apenas o som do silêncio.


Debruço-me para o lado e, com a ponta do dedo, aperto o play. Minha rotineira playlist do lusco-fusco começa a tocar ao meu redor. As notas espalhadas pelo espaço do aposento criam a aura de um descanso triste. A última luz amarela atravessa o vidro da janela e harmoniosamente toca a superfície do meu rosto, meus olhos percebem uma leve claridade por debaixo das pálpebras. Com a aura a transformar todo o ambiente, sinto-me em casa, e meus pensamentos então podem sair mais livres da inconsciência, aparecendo para mim como sutis devaneios, fagulhas de imagens e palavras que, tão logo acendem, já vão se apagando. O som da música acaricia os meus ouvidos e, então, esqueço-me completamente de onde estou.


“Em casa e preparado, apenas começou

Seu coração pesa mais, mais do que já antes pesou.”


Lembro-me da minha infância e de como aquela criança era. Da maneira como o menino experienciava o estar vivo. Ele ainda não havia travado conhecimento com o tempo, com os seus limites, estava sempre a viver numa realidade onde apenas o agora existia. A vida era uma grande novidade, um presente recém-ganhado em um aniversário, cujo embrulho o menino ainda estava começando a abrir. Não entendia os rostos dos adultos, não suspeitava do motivo para aquela tamanha falta de sorrisos. Mas era um tempo em que essas preocupações tornavam-se insignificantes quando ele virava de lado e se punha a brincar e a imaginar. Mas receio que já naquele tempo, havia uma suspeita, uma certa desconfiança por parte dele, de que alguma coisa – qualquer coisa, ainda hoje não sei qual – estava fora do eixo. A criança pequena não erra moralmente com os demais, pois não sabe a dimensão da moral; não havemos de julgá-la por isso, entretanto, o seu erro mais infantil é em relação consigo própria, ela deseja ardentemente tornar-se adulta, crendo, com isso, poder aumentar até a infinidade a sua potência de vida. Uma ilusão colossal sem nem sequer saber. Alguém uma vez escreveu que com poucos anos de vida, o infinito é percebido como característica de todas as coisas. Foi o meu primeiríssimo engano, o maior de todos até o dia de hoje. Erro que uma vez errado não tem solução.


A imagem externa da minha casa passa deslizando lenta e suavemente pela minha mente. Eu moro sozinho e pago as minhas contas. Ainda que doa no fundo do peito, eu continuo a viver e a pagar o que devo todos os dias. Talvez logo eu tenha de montar uma família, deixar algo para trás quando o tempo acabar. Todas essas coisas em troca da segurança de saber quem se é. Curioso, ao lembrar da minha infância, concluí que jamais nos tornamos quem imaginávamos que seríamos na juventude, então passa-me pela cabeça a ideia de como serei eu caso permaneça por aqui por mais algumas décadas. Imagino-me aqui, sentado nessa mesma poltrona, ouvindo as mesmas músicas, descansando de um dia inteiro de descanso. As costas apoiadas relaxadamente. Saturno a um passo de se chocar com a Terra.


“Eu sei que a tristeza

tem o mesmo gosto em qualquer língua”


Houve e há quem cria essas magníficas canções que estou ouvindo agora. Há os artistas. Artistas são adultos que tentam retroceder, voltar a ser criança, recuperar algo que há muito ficou para trás e que se perdeu. Mas não é exatamente a infância o que eles buscam. Há de ser dito que, mesmo se eles tivessem sucesso nessa tentativa, não haveriam de serem plenamente felizes, pois a infância existe e dança e pula por aí no mundo, e o que o artista quer não pode ser encontrado. Isso que se perdeu, na verdade, nunca antes se teve. A minha maior questão para os céus é perguntar o que seria isso que se perdeu. Será que se perdeu? Quem escreve, busca representar em seus próprios escritos tudo aquilo que o atravessa como um vento, tão inapreensível que, mesmo com um milhão de palavras, foge sem deixar rastro, dando a impressão de que tudo foi apenas uma ilusão ou algum sonho, de cujos elementos não se têm mais lembrança. O destino último do escritor é o círculo da sua criação: não terminar nunca e jamais poder parar por motivo de não encontrar o fim. Se eu considerar isso como uma tristeza, terei também de julgar a humanidade como uma espécie triste, pois se todas as pessoas têm algo de artista. Se eu disser por aí que o desamparo é o que nos ampara, serei rechaçado, mas felizmente estou aqui, com a minha música e a minha poltrona.


De repente um aroma molhado faz-se sentir. Abro os olhos lentamente e percebo ao olhar pela janela que começou a chover. Tudo já está escuro, e sei que ainda estou vivo somente por causa do som da música. Volto a fechar os olhos e um escuro mais escuro se forma. Surge dentro de mim um sentimento que pouco a pouco vai crescendo, é a chuva que o causa. A chuva vem trazendo a água para o mundo e a solidão para as pessoas que estão sentadas em suas poltronas. Um sentimento úmido esse da solidão, que a noite, que agora se apresenta, vai tratar de ampliar.


Uma última canção. Um último pensamento se esgueira no canto da minha consciência. Se o Sol, com seus braços bem aquecidos, alcança a todos, também o lusco-fusco o deve fazer, pois o Sol todos os dias vai dormir. E estou tão cansado.




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