O azul e o vermelho

No momento em que na rua, ao retornar para casa depois de pegar um cinema com a namorada, eu avisto umas luzes piscando loucamente, o meu coração, que antes estava tão aquecido, levemente se esfria, sai do seu ritmo normal e começa a bater depressa na medida em que vai gradualmente congelando. Uns cinquenta passos adiante, umas luzes azuis e vermelhas refletidas no muro ao dobrar da esquina causam-me uma desagradável sensação de alerta misturado com medo. Para mim, azul e vermelho juntos raramente significam coisa boa.


A despeito do medo, eu posso me esquivar, trocar de direção, ir para casa por outro trajeto. Ainda dá tempo, é só fazer meia volta e me precipitar por uma das ruas paralelas, que assim eu consigo evitar o encontro com as luzes da sirene. Não. É este exatamente o meu caminho, pela luzes mesmo é que devo ir. Ainda que isso signifique qualquer coisa de horrível, é por ali que a minha vida se fará. É que nunca se sabe o que se sucederá ao virar a próxima curva. Neste instante descubro, no íntimo da alma, a angústia latente do Ser frente ao seu destino e a liberdade de ter que escolhê-lo, reparo assombrado no quão pequenas são as coisas sobre as quais a minha vida está erguida, na insuportável leveza que sinto ao ver a existência ser definida por tão pouco, por decisões praticadas tantas vezes impensadamente. Mas a essa altura já me decidi, estou quase a dobrar a esquina. As luzes da sirene já estão entrando pelos meus olhos, não posso mais voltar.


Uma viatura da polícia folgadamente estacionada ao meio da rua. Ao lado dela, escorando-se na porta, um policial parece fazer atentamente alguma anotação. Na calçada, à esquerda, vejo umas sombras, não consigo identificar o que seja por causa do escuro, mas parece se mover. Haveria de ser mais claro ali para que se pudesse enxergar, mas a lâmpada do poste acima não está funcionando. Então me aproximo pela calçada oposta, pelo lado direito. Talvez isso tudo acabe antes mesmo de começar, mas meus pés e minhas pernas mostram-se menos resolutos do que eu. Ao passo que me desloco, e já na altura onde me emparelho com o policial da anotação, a lâmpada apagada do poste à esquerda volta a funcionar e súbito uma exclamação luta ferozmente para sair da minha boca. Observo então que a sombra tratava-se na verdade de alguém caído no chão, rente ao muro, e que havia ali também um outro policial, agachado junto ao corpo, averiguando-o. Sinto a minha cabeça pender para o lado e o meu sangue correr para os músculos e, antes que eu possa entender completamente a situação, vejo pelo canto do olho o policial da anotação fazendo alguma espécie de sinal com os braços. Porém, a minha visão não larga a cena do muro e do corpo caído. Sem entender ou sem querer entender, começo a suar frio. O que foi que eles fizeram? O policial da anotação continua agitando os braços e eu só descubro que o sinal é para mim quando ele se precipita na minha direção. Azul e vermelho juntos raramente significam coisa boa.


– Ei, fica aí mesmo onde você tá!


As minhas pernas já não são mais minhas.


– Que cê pensa que tá fazendo aqui?


A minha boca já não é mais minha.


– Olha aqui, tá vendo aquilo ali? – diz apontando para a cena do policial junto ao corpo – Se vocês continuarem com essa palhaçada, todo dia vai ter isso.


E se aproximando mais de mim, me olha de baixo para cima:


– Acho que já te vi por aí, cadê seu documento? Me dá ele aí.


De modo totalmente impreciso, saco o documento de identidade da carteira no bolso e o entrego ao policial. A luz da sirene está tão forte que parece vir de mil viaturas.


– Presta muito bem atenção! – e num movimento com a mão ele me dá um tapa na orelha direita – Tá na hora de trocar essa foto aqui, moleque. Se quer deixar essa merda feia de cabelo crescer, pelo menos atualiza a foto!


Ele estende a mão para devolver o documento, enquanto eu, com a orelha ardente, sinto uma chama de ódio acender dentro do peito. Sem conseguir esconder esse ódio, apanho o documento com as mãos trêmulas. Vou para guardá-lo na carteira, mas o meu olhar irrefreavelmente recai sobre a arma recolhida no coldre do policial. Ele repara. Põe a mão direita sobre a arma e então a acaricia. Seus dedos doentiamente começam a fornicar com a pistola. Ele ri e saca a arma. Olho para o seu rosto, vejo olhos que refletem uma chama ora azul, ora vermelha, vejo um sorriso que se abre frente à promessa de uma violência lasciva. Sinto-me como um animal preso numa armadilha.


– Ei, acho que não é ele não. O desgraçado deve ter corrido por aí. Esse aqui é outro. Vamos embora, erramos de novo. – grita de repente o outro policial que está em pé na calçada do lado oposto.


Como se voltasse a si, o policial da anotação pisca loucamente os olhos, solta para fora todo o ar dos pulmões e guarda a arma.


– Tá certo, vamos – responde. E voltando a dirigir-se a mim:


– Repara direito nisso aqui – diz abaixando a voz e apontando o dedo para a arma – não quero ver você andando nessas horas por aqui não, tá ouvindo? Não quero ver! Vai, agora vaza, caminha. E nada de olhar para trás!


Como marionete me coloco imediatamente em movimento. Meu ódio e medo misturam-se agora a algo como uma sensação anestésica. Não sinto os meus passos, nem o bater do coração. Só um formigamento desagradável nas mãos e nos pés. Vou adiante e não olho para trás, ainda que eu saiba que meu destino não mudará em nada se eu olhar. Se for para acontecer, será pelas costas mesmo.


Nada. Os segundos estão passando e nada acontece. Se de fato acontecer, agora o que haverá será mesmo o nada. Porém, nada acontece, e isso me é tudo. As luzes da sirene piscando tornam-se mais fracas à minha volta, é sinal de que já devo estar um tanto longe. Sinto uma forte vontade de correr, de me saber vivo, de chorar e até de rir. Sim, é irresistível essa vontade de rir. Mas não rio, não sem saber se aquela pessoa está viva. Dobro outra esquina, e mais outra, minha casa finalmente aparece à vista. Daqui consigo observar a janela do meu quarto, escurecida pela penumbra da noite, um preto intenso. Lá está a minha segurança, naquele preto. À medida que me aproximo, imagino-me fora de perigo lá dentro, e assim meu coração começa a se acalmar. Depois de uns passos chego à minha porta e finalmente a abro. Meu corpo, todo contraído, enfim relaxa. Contudo, a minha mente não, a cabeça está pesada demais com este estado de coisas: o destino, que é refém de uma mísera esquina, e o preto da minha segurança, que não combina com o azul e o vermelho das ruas.




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