O envelope, por Michelle Rei

Este texto foi produzido a partir da Oficina de Escrita Criativa O corpo conta.


Quase cinco horas da manhã e o sono ainda não tinha me encontrado. Preocupações, preocupações. A cama parecia ter espinhos por toda a superfície. Não havia um único espaço confortável para descansar meu corpo insone. Buscava me cobrir, à procura de proteção, mas um calor desconcertante me incendiava. Jogava as cobertas pra longe e um gelo súbito fazia trepidar meu corpo. Foi quando entendi: pouco importava a temperatura do quarto. Eram os calores e frios da mente, alinhados aos calores e frios da alma, que desassossegavam minhas estruturas.

Como não se pode parar o tempo, o dia amanheceu. Podia ver um rastro de poeira flutuante ao longo do feixe de luz que entrava pela fresta da cortina levemente mofada, o que conferia alguma luminosidade ao cômodo. Sentia meu corpo pesado ao erguê-lo do colchão para sentar na ponta da cama. O dia prometia ser longo... e meu ânimo não acompanhava essa promessa...


Lutando para driblar os pensamentos que atropelavam tudo com suas adivinhações aflitas, fui tomar um banho. “É direito dele saber”, ponderava, enquanto a água batia em minhas costas. “Como vou falar? Como vou falar?”, me distraía em meio a um diálogo solitário, de alguém que não tolerava despedidas.

E o dia seguiu tal qual fora a madrugada: inquieto. Todo o gesto precisava ser ensaiado – beber um copo d’água, desligar o computador, colocar a chave na ignição do carro – não era fácil conter o leve tremor das mãos, incentivado pela angústia que não fazia cessar. “Quando esse dia terminar, já terá sido dito. De uma forma ou de outra! Bem... ainda não foi dito... e quem disse que precisa ser?”


Fato é que nunca fui boa em convencer a mim mesma... quanto mais pensava, menos minhas ideias encontravam algum consenso. E quanto mais o tempo avançava, mais perto me via do difícil momento que, em vão, me preparava para viver.


Ao som de Welcome to the jungle, estaciono. Antes de desligar o rádio, diminuo o volume e espero o solo de guitarra acabar. Uma agitação borbulhante no peito me faz sentir como uma chaleira com água em ponto de ebulição. Pego o envelope de cor branca, desço do carro e me ponho a caminho de meu destino, com passos pequenos por achar que assim demoraria mais.

- Me desculpe pelo sumiço dos últimos dias... Muita coisa pra fazer e pouco tempo. Preciso diminuir o ritmo.


- Por que isso está me parecendo uma desculpa? O que está acontecendo? Não me deixe preocupado.


- Pai, tem alguma coisa que tu gostarias muito de fazer e ainda não fez?


- Mas que pergunta esquisita é essa agora?


- Deves ter, todo mundo tem.


- Ah, eu gosto mesmo é de viajar. Por mim, tava sempre por aí, na estrada.


- Não sei porque eu pergunto se já sei a resposta...


Após uma pausa sem fim, fitando o envelope nervosamente amassado nas minhas mãos, meu pai anuncia com um altivo tom de voz:


- Mais dois meses. No máximo. Eu já sabia...


- Como assim? Por que não me contou?


- Não se preocupe, minha filha. Pra morrer, basta estar vivo. Pelo menos eu recebi aviso prévio! E por escrito!


Ainda não sei como, mas rimos juntos, entre lágrimas e abraços e beijos. Ele sabia me consolar como ninguém. Armado de toda coragem e com aquele indelével bom humor de sempre, guardou o seu medo para acolher o meu.


E concordamos: de toda a história, a única coisa bizarra era aquele pretencioso envelope de cor branca anunciando um ponto final.


Afora isso, tudo normal. Inclusive a minha insônia, crônica desde então.


*****

Michelle Rei

Recém-chegada ao mundo da escrita literária. Trazida por razões acadêmicas, mas certa de que não se confinará a elas. Cercada está, aliás, por profusas estreias, que a põem tonta de tanto viver e pensar (nem sempre nessa ordem): recém-mãe, recém-doutoranda, recém-yogi, recém-investigadora-de-si-mesma. Temporariamente afastada de suas atividades profissionais para se dedicar aos estudos, se vê imbuída de um objetivo: aproveitar essa janela, no tempo de sua vida, para reaprender o que é formação, multidimensionando suas interpretações. Vinte anos dedicados à Pedagogia a guiaram por uns cem modos de racionalizar sobre formação-conceito, mas uma intuição teimosa a convenceu que está na hora de inventar subversões, preenchendo essa palavra-vida de todo o sentido pessoal possível. Um convite para reencontrar-se com os poderes imprevisíveis da narrativa. Quantos “eus” cabem nessa empreitada, ela não sabe. E, no fundo, já não é isso o que importa.

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