Sobre armas e outros artigos domésticos

Atualizado: 27 de Jan de 2019

Seis anos, quase sete. A idade que eu tinha quando a morte ganhou ares de tragédia. A mesma dos meninos. Primeiro, o do prédio ao lado, janela aberta pra minha, gostava de brincar de arminha, como se espera(-va?) dos meninos, deu um tiro na irmã, de propósito. Acidente é colisão de carros, queda de avião. O fato de a arma ser de verdade, o pente cheio, as crianças saberem do esconderijo secreto na parte de cima do guarda-roupas, no fundo, atrás dos casacos, não foi acidente. Também não foi surpresa. O pai era policial ou coisa do tipo. Ele não estava em casa na tarde de domingo. A arma, sim.


Depois, um xará na primeira série. Juliano, tinha um desvio de aprendizado, não se sabe qual. Ele pintava de preto a folha inteira. Naquela época, a tudo se chamava retardo. Retardo não pintar ovelhas na cor adequada, na área tracejada. Ovelhas num papel branco já vem pintadas, qualquer cor serviria ao propósito de preencher o vazio da forma, menos preto. Preto era inaceitável, segundo a professora, a diretora, a assistente pedagógica. Retardo andar de galochas em dia de sol.


Não foi retardo o que o fez pular a cerca do campo atrás da escola. Não foi retardo, foi amor às vacas, curiosidade, tempo ocioso, mais a negligência que permite a um menino de 7 anos andar sozinho na Porto Alegre dos anos 80, pular uma cerca, mexer numa vaca, tomar, não um coice, um tiro. Não um tiro, três. Morrer antes das férias.


Quando se fala em arma, penso nos vizinhos, penso no Juliano, em galochas e vacas. Penso nos meninos. Meu filho, aos seis anos, acha que a morte é o fim de um jogo de videogame onde sempre se pode continuar, começar de novo, trocar o boneco por outro mais resistente. Penso na sorte de quem nunca viu um caixão pequeno, sequer por fora.


Sobre liquidificador, eu lembro dos segredos do Cazuza buscando um jeito de não sentir dor. O mesmo Cazuza e a piscina cheia de ratos, e as ideias que não correspondem aos fatos. Eu lembro. Mas parece que o tempo para.


Sobre Ju Blasina Nascida em Porto Alegre, crescida em Rio Grande, Ju Blasina é poeta e feminista. Cursou biologia e letras pela FURG. Publica em e-zines e jornais de sua região desde 2009. Lançou dois e-books independentes (2010 e 2014) e seu primeiro livro, 8 horas por dia, pela Concha editora em 2017.

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