Violento e sem freios, Mandy comprova: se tem Nicolas Cage doidão é bom

Atualizado: 8 de Fev de 2019


Coisas estranhas acontecem em Mandy (EUA, 2018). Muitas delas. E quando se topa com um thriller de vingança como esse, uma cacetada visual abertamente lisérgica e suspensa da realidade, fica difícil tentar elaborar qualquer leitura crítica que faça algum sentido. Protagonizado por um Nicolas Cage ainda mais maníaco que de costume, e com boas doses de psicodelia e violência gratuita, o longa do diretor Panos Cosmatos é o próximo queridinho na categoria "filmes para ver chapado" do Netflix.


O filme abre com o maior jeitão de cult, ao som de "Starless" do King Crimson. Sério, essa música. O ano é 1983 e Cage encarna Red, um lenhador com boa mão para motosserras. Após um dia derrubando pinheiros em alguma floresta idílica do interior californiano, ele volta para casa e para Mandy (Andrea Riseborough), ilustradora de seres fantásticos e fã de Mötley Crüe. O clima é de casal feliz no casulinho, não fosse a soturna trilha synth-progressiva de Jóhan Jóhansson entregando que algo bem bisonho está pra acontecer.




O tempo fecha quando entra em cena Jeremiah Sand (Linus Roache), que por acaso é líder de um culto satânico. Ele passa por Mandy na estrada e fica obcecado por ela. Logo o grupo invade a residência com a ajuda dos Black Skulls, uma gangue de motoqueiros com visual tosco-pero-ameaçador que se alimenta de sangue humano. O casal é torturado de forma brutal e as coisas não acabam exatamente bem (sem spoilers, nobre leitor). Vamos dizer que Jeremiah é tão malvado em sua total apatia pela vida humana, que deixa Charles Manson parecendo um bebê de golden retriever.


E aí começa a metade final. É quando o filme engata uma quinta e Nicolas Cage se transforma em, bem, Nicolas Cage. Caras de louco, choro traumatizado, longos gritos, está tudo ali. E o pau come solto nessa jornada de vingança. Que outro herói por aí tem a moral de acender seu cigarro num crânio flamejante recém-decapitado? Que participaria de um duelo de motosserras sem medo do ridículo?



Cosmatos não chega a ser um David Lynch na hora de conduzir o mistério, mas dá conta do recado com uma direção experimental, escancaradamente cinemática. Ele nos insere num clima de pesadelo retrô, com fotografia crepuscular, estourada no vermelho e levemente granulada. Em certos momentos é como se estivéssemos assistindo a uma surrada fita VHS dos tempos de Vídeo Ludio. A narrativa é cortada por intertítulos (escritos com fonte de banda metal) e vinhetas em animação. Tudo com um apuro estético bem peculiar e a certeza de que uns membros da equipe no set fizeram uso continuado de psicotrópicos.


É muito bom que ainda saiam filmes assim, abertamente heavy metal, movidos a sadismo, fumaça e sangue. Uns dirão que é o triunfo da forma sobre o conteúdo, e pensando assim é até OK considerá-lo um lixo. Talvez a época dos grandes roteiros tenha realmente chegado ao fim. Mas o cinema americano anda tão careta e resumido a filmes de super-herói, remakes e caça-Oscar, que a simples existência de um Mandy deve ser saudada por quem ainda busca diversão na autenticidade.


Fernando Halal é jornalista e fotógrafo, apreciador de rock, cinema, churros e, naturalmente, vídeos de bichinhos.

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