Bobolendobobolendo

Hoje escrevo para te fazer perder tempo. Faço questão de enrolar você que imagina uma reviravolta onde o texto PÁ! era um manifesto contra a produtividade, o capitalismo e o ócio regrado. Mas sou apenas um instrumento para que toda prepotência criativa seja canalizada nas linhas que seguem, caso este fosse um manifesto contra a produtividade eu não estaria produzindo. Agora pareço apenas uma pessoa mimada, que teve mãe demais e irmãos de menos, que segura um diploma de psicologia para legitimar a falta de pé e cabeça, alguém que não merece o seu tempo.


E não mereço mesmo, o tempo não é seu. Pelo menos eu espero que não seja, porque se você for a pessoa que inventou o tempo...Vamos ter alguns problemas. Cordas, fita... coloquei no Google “fita que se usa para sequestrar leitores”: não encontrei respostas além de reportagens que mostram a polícia em algum ato heroico de papelão. Voltando ao assunto, teremos problemas: 1) você é realmente a pessoa que tem a definição do tempo em suas mãos e enquanto ele escorre, estará fazendo as alterações que eu exigir agora ou 2) você perderá todo seu tempo enquanto amarrada em qualquer estação de ônibus vazia e assim todos estaremos perdendo até ele não existir mais.


No caso de você não ser esta pessoa, você não tem o tempo e nem eu. Então preciso revelar um segredo que apenas procrastinadoras já perceberam e você não é tal tipo de pessoa – imagino – então lá vai: Quem tem tempo é o miojo que no auge da alegoria de comida mais rápida do universo teima em ser demorado. Custava colocar “tempo máximo 30 minutos” na embalagem? Assim os três minutos renderiam. Não teve graça porque não era piada, veja bem.


Minha profissão não é diferente: Quando analisadas, passamos uma vida inteira em banho (Ariel, Maria, Joaquina, Berenice, qualquer que seja o seu nome) de 45 minutos em 45 minutos para descobrir em um tempo de miojo o grande pulo do gato neurótico. Quando analistas, lidamos desde a maquininha de fazer macarrão da Eliana até o atual estado de pacotinho de tempero ao alho e ódio demais da analisada por algo que aconteceu no tempo de um miojo.


Onde eu quero chegar com isso? Lugar nenhum. Ontem me senti assim assistindo um filme que nada acontecia e eu poderia ter contado a mesma história em tempo de miojo, mas não fiz. Da mesma forma que você poderia ter vivido todos os momentos relevantes para sua vida psíquica em três minutos e não fez, não fez porque a vida às vezes só não acontece. Pobre coitado do personagem parecia que iria morrer de tédio antes de mim, mas não fez nada. A gente não faz, não precisa fazer.


Realmente eu quero que você se mantenha perdendo o tempo que não tem para aproveitar o tempo que tiver depois. E aí, caso funcione, lembre que não há coisa na vida que mereça ser sentida em tempo de miojo. Este é um manifesto contra a produtividade, o capitalismo e o ócio regrado. Mas sou apenas um instrumento para que toda mentira criativa seja canalizada nas linhas que esta sucedeu, caso este fosse um manifesto contra a produtividade eu não estaria produzindo.



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