Eu canto porque o instante existe

O título acima é o primeiro verso do poema “Motivo”, da incrível Cecília Meireles. Vemos que o primeiro verso responde o nome do texto lírico – a voz poética canta por qual motivo? Porque o instante existe. O tempo presente faz essa voz cantar os seus versos, ou seja, o poema é uma consequência da passagem do tempo, da vida corrente – e da percepção que este tempo existe.


Agora fica a pergunta: por qual motivo você canta? Ou melhor, por qual motivo você vive? O que faz você levantar todo dia da cama e seguir em frente? Conquista profissional? Terminar a faculdade? Terminar um livro? Apenas sobreviver neste mundo difícil? E agora a grande pergunta: quantas lutas você precisa enfrentar para conquistar os seus objetivos?


Eu sei, são vários motivos que fazem você viver, e são vários obstáculos que precisam ser superados. Eu sei, porque todos nós vivemos com essa dualidade: o que queremos e o que precisamos fazer para conquistar os nossos objetivos.


Saca só: no conto (ou novela) “O alienista”, de Machado de Assis, o médico Simão Bacamarte quer estudar as enfermidades da mente humana e cria um hospício chamado Casa Verde, na cidade de Itaguaí. Entretanto, os seus métodos de internação são questionáveis e a população se revolta. No romance Capitães da areia, de Jorge Amado, o juvenil Pedro Bala busca sobreviver a uma vida difícil como menino de rua, e para isso, ele enfrenta as leis praticando roubos e furtos e foge da polícia, que o caça pelos delitos. Na peça trágica Édipo rei, de Sófocles, o atormentado Édipo investiga a morte do rei anterior, Laio, sem saber que era seu pai e que ele o tinha assassinado – para conseguir a informação, ele parte para interrogações até chegar ao catártico momento da descoberta (ou reconhecimento, como diria Aristóteles). No filme The revenant (O regresso), dirigido por Alejandro Gonzáles Iñárritu, o protagonista Hugo Glass, após um ataque de urso e o assassinato de seu filho, busca sobreviver às más condições de seu corpo e o inverno rigoroso para empreender uma caçada humana e vingar a morte de seu falecido rebento.


Eu poderia continuar com os exemplos, mas acho que é o suficiente pra você, caro leitor: dê motivações para suas personagens. Não as deixe a mercê de uma falsa história – e digo falsa história, pois apenas temos uma se surgir da personagem. Assim, apenas teremos uma narrativa se houver uma personagem em conflito, e a sua busca para resolver este conflito.


Imagine se Walter White se conforma com a notícia do câncer terminal e resolve continuar a sua vida de professor de química em um turno e no outro de lavador de carros? Ou se Neo (ou Mr. Anderson) escolhe a pílula azul e não a vermelha? Ou se Frodo declina a missão em levar o Um anel para Mordor e destruí-la? Ou se Luke Skywalker resolver seguir a sua vida pacata, sem partir para a sua grande jornada e salvar a princesa Leia?


Não temos história. Não temos seriado. Nem filme. Nem romance. Nem conto. Nada.


Se você quer conquistar algo e precisa enfrentar batalhas, a sua personagem também precisa. Dê uma motivação para ela. E um ou dois ou três ou quantos conflitos quiser. Mas dê algo para que ela possa superar, enfrentar um mundo diferente, um ambiente em que ela possa aprender algo e se desenvolver.


Não estrague a sua personagem (e a sua história) sem estabelecer um conflito. O leitor precisa ter empatia com esta figura ficcional, senão ele não continuará a leitura. Então faça da sua criação literária a persona mais humana possível. É simples, mas não é fácil, portanto pratique. Deixe o seu lado romântico e idealista em escrever quando chegar a inspiração e pratique a escrita todo dia. Sim. Todo dia.


Opa, estou dando spoiler dos próximos textos.


Voltemos à personagem.


Conquiste o leitor. Fisgue-o pela peça mais importante do quebra-cabeça.


Dê sentimentos humanos a ela e dê problemas para resolver.


E pratique (isso repetirei sempre). Crie uma personagem por semana. De diversos tipos. E as insira em uma narrativa.


Opa, mais spoilers.


Enfim, faça da escrita um hábito.


E cante. Afinal de contas, o instante existe.


Cristiano Vaniel é professor de Literatura, escritor, vive em Twin Peaks, fuma Red Apple e é embalado por synthwave.

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