Novo normal

6h30. As pálpebras da senhora abrem-se sem aviso prévio. Ela sempre acorda como em um susto. Afinal, sempre vai dormir todas as noites (bem cedo) como que com medo. Viva, ainda viva, graças a Deus. E o Roberto deve estar com fome, se bem que não veio miar na minha volta ainda. Sabe pela intensidade da luz que entra pela persiana que ainda está cedo demais. Cansada, mas sem sono. Talvez se eu dormisse só mais um pouquinho... Sabe que não vai conseguir dormir novamente. Sempre às 6h30 em ponto; arrancada de um sono sem sonhos, de um lapso temporal em que se perde sem estar consciente de estar perdida, de um sabe-se lá que espaço escuro em que não se consegue determinar ao certo onde começa e onde termina. Talvez se eu ficar encarando o teto, sem pensar em nada, o sono vem... Não vem. Mas encara o teto, esse espaço em branco, nem tão branco assim, profanado pelo mofo e pelas manchas, mas pelo menos um espaço bem delimitado pelas bordas das paredes. Uma espécie de meditação. Observar o mofo todas as manhãs, bem (bem) cedo, até que as conversas matutinas dos pássaros sejam substituídas pelo vaievem das motos, dos carros, das pessoas... Das pessoas. Quando a senhora escuta uma voz humana pela primeira vez, a meditação está terminada, como que precisa levantar.


Não é possível que tudo já acabou, não é possível que não tenha mais nada! Abre, fecha e reabre os armários e a geladeira algumas vezes como que querendo acreditar (mesmo que não acreditando) que, como mágica, a possibilidade de um café da manhã surgirá de repente. E o Roberto deve estar com fome... Roberto vai mesmo miar na sua volta quando percebe seu movimento. Coloca um restinho mixuruca de ração sem direito à sachê no pote de comida do bichano e acaricia sua cabeça, mexendo os dedos pelas suas orelhas, coçando o seu queixo, como que pedindo desculpas, e o Roberto assente, esfrega o corpo na velha companheira como que dizendo que está tudo bem, que ele entende, mas ao mesmo tempo a olhando (carinhosamente) para deixar claro que não há mais jeito, que chegou a hora: vais ter que ir ao mercado, velha amiga! É, eu sei, eu sei... Pelo canto da janela da sala, escondida por entre as cortinas, observa o mundo lá fora. Velhas fofoqueiras! Para casa, vamos! Não têm mais o que fazer? As vizinhas do condomínio se amontoam em frente ao portão, risonhas, felizes, conversadeiras, cheias de abraços e afetos, recuperando todo o tempo perdido.


Aproveita o tempo que se sente trancada em casa pelas vizinhas para se arrumar. É vaidosa e não gosta de ir ao mercado de qualquer jeito. Tira um tempo para escolher as roupas adequadas, lavar o rosto, pentear os cabelos, passar perfume, se maquiar... A máscara! Se bem que eles disseram que eu não preciso mais... Ela odiava usar a máscara. Dizia se sentir sufocada e ficava frustrada em se arrumar toda para tapar metade do rosto com uma máscara ridícula. Eles disseram que eu não preciso mais usar a máscara... Olha para a rua. As vizinhas terminaram suas fofocas matutinas e entraram em casa. A rua está praticamente vazia. Cedo demais para a cidadezinha; para ela, o horário perfeito para sair de casa. Observa um ou outro transeunte que passa longe, quase na esquina da rua, antes de dobrar e finalmente desaparecer. Nenhuma aglomeração. Ela decide pegar a máscara, assim mesmo. Coloca-a por cima da boca borrando o batom (não foi dessa vez). É melhor assim... não me custa! Vai saber, não é? Roberto brinca por entre as suas pernas como que em apoio: está tudo bem, velha amiga, tudo bem usar a máscara só mais uma vez.


Na rua, opta pelo caminho mais longo, pelo menos umas três quadras a mais até o mercado. É melhor assim, não é? Por aqui, evito de topar com alguém, não quero que me vejam assim, não quero que me peguem para Cristo, não quero ter que parar no meio da rua para conversar e conversar e conversar... Por aqui, encontro menos gente. É melhor assim, não é? Ainda gasta mais alguns segundos adicionais de tempo em tempo fazendo o esforço de dobrar a rua quando passa alguém. Tenta ser discreta, tem medo de ser julgada. Mas é mais forte do que ela. Quando vê alguém se aproximar, mesmo que lá do final da quadra, faz um esforço de atuação. Atravessa a rua tentando soar convincente a necessidade de mudar de lado. Quando espia novamente o estranho e o percebe mais longe, volta para o trajeto programado. Também, o que custa usarem a máscara?! É certo que dizem que as coisas estão melhores, mas o que custa fazer só mais um esforço, hein?! Ela é um objeto curioso para quem passa. É claro, todos percebem que ela atravessa a rua como que assustada, todos parecem não entender o porquê de ela ainda andar mascarada em um espaço aberto e vazio. Eu me sinto sufocada.


O mercado (único lugar que ela se dá o luxo de visitar por necessidade) é sempre um problema. Ninguém para mais as pessoas na porta (naquele horário, “as pessoas” se resumem a senhoras como ela). É muita gente... ninguém controla mais, ninguém mede mais a temperatura! Tudo sem máscara! O que custa fazer só mais um esforço, hein? Essa gente fica confiante demais muito fácil! Ela zanza discretamente (discretamente apenas para ela) na frente da entrada, esperando que todos passem para que ela possa entrar sem se sentir insegura. A porta automática se fecha atrás dela. Quando finalmente presa (para ela, é como estar presa), sente o lugar diminuindo aos poucos. Tornando-se mais e mais apertado a cada momento, não sabendo ao certo se porque as paredes se aproximavam ou se porque a meia dúzia de senhoras bem arrumadas parecia se multiplicar em muitas vezes de súbito (ou os dois).


Perto dos carrinhos, encontra um álcool em gel perdido, atirado de canto, sobrevivente aos tempos sombrios. Viva, graças a Deus! Ela o resgata com alívio. Toma quase um segundo banho. De canto, tentando ser invisível (apenas tentando), esfrega o gel grudento com força nas mãos, passa por todos os dedos, pelos entrededos, pelas unhas, por debaixo das unhas, sobe pelos pulsos, alcança os braços, higieniza-se até onde pode. Do carrinho se aproxima com todo cuidado (como se fosse uma fera selvagem). Chega perto em passinhos curtos, vira algumas boas gotas de álcool por toda parte que irá precisar segurar e esfrega, esfrega, esfrega. Agora sim!


Quando levanta a cabeça e retorna de seu ritual de purificação, o mercado tornou-se um verdadeiro centro urbano (em miniatura, o que torna tudo mais aterrador). Eu preciso ir embora! Lembra do Roberto... Só mais um esforço, não é? Começa a calcular as possibilidades de andar por entre os corredores sem esbarrar em alguém. O cálculo não bate, parece impossível. Vou ter que me sujar. Prende a respiração o máximo que consegue (a respiração já vai mal, acelerada, castigando o peito). Mentaliza. Só o básico, eu preciso só do básico. Recria o mapa mental para enxergar onde encontrar com prontidão tudo que precisa. E vai a passinhos largos e nervosos!


O mapa mental não dura muito, é como que rasgado (estraçalhado) pela angústia. Os corredores tão bem organizados pelo mercado tornam-se um labirinto. A ração, onde está a ração? Se eu só comprar a ração é de bom tamanho... eu me viro com que tiver em casa para mim. Só preciso da ração do Roberto. Não encontra a ração de jeito algum. Tem a sensação estranha de que está passando pelo mesmo corredor já pela segunda, terceira, quarta vez... Não tem a coragem de parar para pedir licença (ou para pedir informações). Quando encontra alguém atravancando o caminho, dá meia-volta e tenta encontrar um trajeto alternativo. Não encontra. Sente-se mais perdida. E as pessoas se multiplicando e o lugar diminuindo. Respira fundo. Não, prende a respiração, pode ser perigoso demais respirar fundo. Segura. Só mais um esforço. A ração! Cadê a ração? Pessoas felizes passando por ela, sem máscara, de mãos dadas, aos abraços, sorrindo, cantando, falando alto, espirrando, tossindo, fazendo voar por todos os cantos gotículas de saliva, sentindo-se plenamente seguras, livres, vivas outra vez, dispostas a viver outra vez, em companhia outra vez... E a nossa senhora, coitada, sozinha contra o mundo, com seu carrinho higienizado contra o mundo, com a lembrança solidária de seu gato contra o mundo. E de repente: Ração! Achei, ração! Viva, graças a Deus! E um coro doloroso de vozes segue seu júbilo: Mãe?! Vó?! A mulher e a menina se aproximam (sem máscara), entusiasmadas com o encontro, de braços abertos, convocando-a cheias de saudades. A senhora recua (queria tanto aquele abraço, mas não pode, não consegue). Filha e neta parecem entender, olham-na complacentes (melancólicas). Era esse o pacote que tu ia pegar, vó? A neta alcança o saco enorme de ração para gato na última prateleira e coloca no carrinho da avó. A senhora logo grava o lugar em que a neta tocou o pacote para tomar todo o cuidado de não compartilhar o toque (sorri para a gentileza, sorri pela lembrança carinhosa da garota que se materializa em sua frente, mas elas não podem ver seu sorriso por causa da máscara). Mãe, a senhora vai levar um pacote desse tamanho pra casa? Sozinha? Por que tu não vem com a gente? Eu te dou carona. A senhora apenas balança a cabeça negativamente, não conseguiria mais entrar em um carro com outras pessoas. Apenas a ideia torna sua respiração mais pesada (sente falta, muita falta, da filha e dos papos e das risadas)...


A reunião familiar repentina a faz retornar alguns anos no passado. Sente que desde então ela apenas sobreviveu. Depois que tudo começou. Principalmente depois que ele se foi. Mesmo depois que tudo acabou e que dizem ter tudo se acertado outra vez. Como voltar a viver (como antes)? Imagina-se viva por um mero acaso. Poderia ter sido ela, pensa. Em todas as vezes (e foram muitas vezes, vezes próximas, próximas demais), poderia ter sido ela. Pessoas mais novas, pessoas mais saudáveis, pessoas mais cautelosas. Poderia ter sido ela. Viveu os últimos anos como que em um grande jogo de azar (valendo vidas). O jogo acabou, mas os fantasmas continuam a jogar. Poderia ter sido ela. Lembra-se das gurias (como as chama) os visitando no inverno, compartilhando o mesmo mate todos juntos no inverno, juntos bem juntos se aquecendo no inverno, conversando, perto bem perto, no inverno, trocando palavras, toques, afetos, no inverno. Um dos personagens da memória vai se tornando um borrão, um vazio, uma lacuna. Como voltar a viver (como antes)? Poderia ter sido ela.


Um lampejo: talvez não teria feito diferença se tivesse sido eu.


Um outro lampejo: ou melhor, talvez deveria ter sido eu, seria mais fácil.


Ela sorri (por trás da máscara) um sorriso doído. Obrigada, gurias. Eu preciso ir, não posso, não consigo. E ruma ao caixa com seu pacote de ração. Filha e neta a olham complacentes (melancólicas). Quando a senhora retorna à casa, Roberto a recebe miando – viva, graças a Deus! Fareja, logo de cara, a única compra, o pacote de ração, e se esfrega nas pernas da senhora como que tentando a reconfortar – Está tudo bem, velha amiga, você tentou, você tentou... Ela abre todas as janelas, esfrega, esfrega, esfrega as compras (a compra) com sabão, tira as roupas, atira-as na máquina de lavar, esfrega, esfrega, esfrega o corpo com sabão embaixo da água do banho e começa a limpar toda a casa (mais uma vez naquela semana).


Esfrega, esfrega, esfrega (com todo o cuidado) o que sobrou dele em um retrato.


Lucas Zafalon Garcia (1998) nasceu em Rio Grande (RS) e sofre, desde a epigênese da infância, de verborragias – pensa em renovar o homem usando borboletas, pois sabe que um galo sozinho não tece uma manhã. Formou-se, portanto, como consequência direta dessa condição, em Letras Português-Inglês (FURG) e atualmente é mestrando em Letras (UFRGS), na área de Estudos de Literatura, em que almeja estudar a literatura em tensão com a teoria social, a filosofia e a psicanálise. Publicou crônicas esparsas no falecido Jornal Agora e é autor do livro de contos Esta nossa tautologia, a ser publicado pela Concha Editora em 2021. Além disso, vez ou outra, compartilha alguns rascunhos poéticos despretensiosos em seu perfil do Instagram (@luczafalon).


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