Os meus poetas antepassados

Atualizado: Set 9

Gostaria de falar simples como meus antepassados: com palavras bem mastigadas igual a fumo de corda. Saiba! palavras bem mastigadas não são palavras bem explicadas. São, pelo contrário, palavras que têm sabor. É como chupar uma fruta suculenta. Escorre pelos cantos da boca. Só meus antepassados, alguns ainda vivos, em mim, ou na vida mesmo, saboreiam as palavras sem medo da nódoa.

Veja, não é uma coisa de erudição. Longe disso! É uma forma de ver a vida. De sentir a vida. Tem uma melancolia com gosto de cachaça adocicada, ou rapadura, ou melado, ou paçoca, ou água da bica, fresquinha e doce numa caneca amassada de alumínio. Só quem bebe água com gosto, com suor na testa, sabe o tamanho da sede. E a alegria infinita da saciedade. Só quem chupa manga com as mãos, direto do pé, sabe o verdadeiro sabor da manga. Assim é com as palavras. Queria não ter medo de aproveitá-las. Degustar sem dó. Já viu criança afobada por doce? Acaba se lambuzando, bem diz o ditado. E é nisso que a vida constitui. Aquela vida abençoada.

Gostaria muito de possuir a mastigação de meus antepassados. Não eram de comer pouco, mas de chupar um tanto. Até o caroço das coisas. Viver como eles viviam: até o caroço. Até o miolo das coisas. E havia aqueles que roíam os ossos das galinhas e outros bichos. Engoliam o caroço da vida. É duro, eu sei. Não tem um gosto doce. Mas viver a vida é aproveitar o azedo e o amargo muito bem aproveitado. Não desperdiçar um fiapinho de manga. É tirar uma parte para plantar, também.

Escolher as palavras como meus antepassados escolhiam: como quem separa as melhores sementes para o plantio. Ser poeta como eles eram. Mesmo sem leitura dos livros. Liam o mundo com olhos nascentes. Eles não plantavam palavras para eles mesmos. Ao se comunicarem, falavam ao seu passado mais íntimo. E a um futuro nunca assuntado. Semearam árvores que sobrevivem aos seus corpos. Plantaram sementes que só dariam fruto oitenta anos após as suas mortes. Outras ainda que não dariam rebento.

Os meus poetas antepassados semeavam palavras no terreno fértil que é o ouvido de uma criança. E esperavam que, no tempo delas, elas dessem flor. Muitas vezes nascem frutos que, hoje, não sabemos mais degustar. Ai, quem me dera saber chupar as palavras até o caroço! Gostaria muito de falar nas coisas mínimas. Isso não significa fazer tudo nos por menores, mas tratar daquilo que de tão miúdo só pode ter levado muito tempo para ter sido feito. Igualzinho a germinação das sementes.

Palavras brotam todo o tempo. Nunca de lugar nenhum. Para capturá-las é preciso ter mãos firmes. Mãos de quem colhe café na plantação. Mãos de quem desce das árvores o alimento necessário.



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