Um par

“Mandemos entrar o simplório, façamo-lo sentar-se na primeira fila

e perguntemos a ele o que Lacan quer dizer.”

(trecho do seminário 7, página 89)


Por onde começar? O primeiro atendimento é o mais difícil, dizem... Não sei nem se eu preciso mesmo de promessas analíticas. Vocês analistas gostam tanto de falar sobre objeto, mas não sabem o que é ser um.


Nos encontramos no início do inverno. Depois disso foi banho de água fria e voltas em frente ao calendário até cansar. Blá-blá-blá 2020 somos só nós, apenas nós cada vez com menos laços. Laços ela tinha com outrem, os que passeavam demais, corriam demais. Os rígidos. Não entenda como um pedido de socorro, mas um registro dos dias. Se preferir, me socorra, porém logo chegam as flores e penso que de qualquer forma nosso encontro está por acabar.


Hoje mesmo, teve a audácia de me julgar por ser feito de matéria animal, e ela não é? Todinha animal. O objeto e a coisa, o paradoxo do gozo. Lacan idiota.


Ela me preenche e me arrasta para lá e para cá. Em dias frios vem acompanhada de outras tão coloridas que me deixam tonto. Delas ela não larga nunca, sempre um agarramento até o outro dia, quando são trocadas sem dó. Observo tudo como quem estivesse de vingança, mas lembro que ninguém se importa. Elas ficam um tempo fora, voltam cheirosas e acontece tudo novamente.


Em dias quentes é como se eu não existisse mais, fico ali observando o passar do dia, os passares dela que parece gigante, sei que é por conta do meu ponto de vista, mas seria pelo olhar de quem? Sempre viva, como erva daninha, sempre em pé, sempre longe de mim. Tomara que tenha cólica esse mês. Eu, por mim, não desejo mal. Aí ela pergunta “Agistes em conformidade com o teu desejo?” Lacan, velho idiota.


Para mim, é a única, que quando não lembra de mim me perco de mim mesmo, mas não faz por abuso: É porque não gosta do meu eu de direita, só fala em esquerda o tempo todo… Supersticiosa ao contrário. Eu repito para mim mesmo todo dia.


Antes costumávamos viajar, para ela eu não via nada, muito fácil julgar quando você não precisa cuidar concreto, prego e flor, né? A função do bem, Lacan babaca.


Cansativa. A função do belo.


Eu deveria machucá-la como os outros fizeram, mas sou o aconchego dela e por isso me escolheu. Flexível. O conforto daquela carne dura - é uma grossa cada vez mais grossa, grossa e áspera, gelada e grossa cheia de garras: com ódio e sem vontade - não me sente mais. Penso em dar de cara com um prego para ver se ela se toca, mas nem prego tem nessa casa, só tem Lacan com os objetos e significantes idiotas. Fui feito para isto.


O odor era outro, outros tempos. Agora me arranha cheia de garras, mas trocamos bem menos fluidos. Sempre gelada em descompasso, sempre gelada sem velocidade. Eu queria dançar. Que agonia ser chinelo, que idiota.


Nos encontramos no início do inverno e eu ficava na janela pegando sol, matando micróbios. Agora é beira-de-cama todo dia e me dou por contente por não ser embaixo-de-cama com ela no chão, olhando para mim: objeto, significante e significado imóveis no piso frio.


Mas a semana foi ótima sim, nada demais.



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