Virada

Ontem, ao som do estalar dos copos, desejaram-me saúde, disseram que seria bom comemorar com um brinde pois dois mil e vinte havia sido um dos anos mais difíceis que já vivemos. Éramos uns seis ou sete num bar, sentados em volta de uma mesa redonda de cor marrom escuro, fazia calor e todos ao falar pareciam que gritavam. Havia muito barulho em volta, o lugar estava lotado de gente.


– Como é ótimo poder finalmente fazer isso! Vocês quase enlouqueceram também? Eu já não aguentava mais…


– Ah! Nem me fale, nem me fale. Ainda hoje me pego duvidando de que tudo isso realmente tenha acontecido. Às vezes tenho a impressão de que foi apenas um sonho. Se a doença não tivesse sido testemunhada pelo mundo todo, com certeza não acreditariam na gente. E para você, João, também se sente assim?


Eu ainda não havia começado a prestar atenção nos meus amigos desde que os reencontrara há uns minutos atrás, por isso demorei até perceber que todos estavam olhando para mim.


– Sim, sim. – respondi.


– Bom, pois é! Acho que todos aqui ainda estão pasmados com tudo o que aconteceu. Mas, já é hora disso ser história. Estarmos reunidos aqui significa que tudo isso ficou para trás. Não foi dessa vez que nos tiraram as festas de fim de ano! Ha, ha, ha!


Todos concordaram alegremente como se precisassem que alguém anunciasse que a pandemia havia acabado para poderem ser felizes. Houve mais um brinde. Os copos reluziam o amarelo da cerveja como se a realidade fosse uma enorme propaganda de bebidas. Brindamos em nome de alguma coisa que não me lembro, talvez algo que só tivesse sentido internamente no nosso grupo. O barulho de vozes e risadas vindo de todas as direções havia começado a incomodar os meus ouvidos. Muitos meses de silêncio deviam ter me desacostumado.


A partir daí o momento no bar passou tão rápido e naturalmente que não me lembro de nada. Eu sempre me esqueço dos melhores momentos que vivo, eles simplesmente me atravessam. Eu não os penso, não os capturo, não os significo. Passam por mim sem eu notar e não deixam quase nenhum rastro como recordação, apenas a sensação de que algo me aconteceu.


Quando restavam dois minutos para a meia-noite havia uma multidão. Eu mal conseguia reconhecer a areia da praia nos pequenos espaços entre uma pessoa e outra. Parecia que cada pessoa em quarentena tinha dado à luz outra, e que agora estavam todos, a cidade inteira, ali em frente ao mar, ansiosamente esperando as luzes. Se no bar havia gritaria, agora, para que pudéssemos nos ouvir, teríamos que gritar a plenos pulmões.


– Vocês sabiam? Parece que esse ano haverá ainda mais fogos para compensar.


– O quê? Compensar o quê?


– Os dias de merda que tivemos.


– Ah sim! Os dias de merda. Que bom, então haverá fogos até o Carnaval!


A ânsia da multidão pelas luzes se fazia sentir no chão que parecia tremer. Alguém num grupo ao lado parecia gritar uma contagem regressiva. Uma das amigas, com uma garrafa de não lembro o quê em uma das mãos, aproximou-se de mim e se pôs a encher meu copo:


– E aí! Você sempre foi assim na sua, quietão e tudo, mas eu já te vi mais alegre que isso, principalmente no fim de ano. Que há contigo?


– Eu estou bem, só tem uma coisa que está me incomodando em tudo isso que estamos fazendo.


– Nós? A gente?


– Nós. A gente. Aquele cara ali gritando. Todo mundo.


– João, te entendo. Sempre, em qualquer coisa que fazemos na vida existe algo que pode ser levantada a suspeita. Se fizermos a pergunta certa no momento oportuno, tudo desmorona e não saímos da cama.


– Sim, – respondi levando o copo à boca – mas não é exatamente sobre isso que se trata. Tem algo mais. A pandemia acabou e agora voltamos ao normal, mas deve haver algo mais que isso. Acho que sei o que é.


– O que é?